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Startups e network

  • Blog
  • 28 de Fevereiro de 2012
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Ou o que nós podemos ajudar para termos mais empreendedores

 

Uma vez um amigo italiano disse que o Brasil era o país das oportunidades. Na Itália estava tudo pronto passando de pai para filho. Aqui ainda havia gente com muito a conquistar e certamente o mercado cresceria com a inclusão dos novos potenciais consumidores.

Bem, o italiano abriu seu negócio e depois perdemos o contato. Pode ser que tenha dado com os burros n’água. Mas como aconteceu com muitos imigrantes no Brasil, hoje pode estar com o burro na sombra.

Ele não deve ter sido criado como eu, cujo grande sonho dos pais, era garantir uma futura aposentadoria do Banco do Brasil como a deles. Não tive jeito para tal. Mas faltou também outra coisa para botar a cara para bater de verdade. Até tive pequenos arroubos empreendedores, faltou mesmo foi coragem para dar o tal salto no escuro e tentar vôos maiores.

Por esses dias l o livro Startups Open Sourced. São entrevistas com criadores de empresas tais como AirBnb, AppSumo, Blippy, foursquare, GitHub, Grooveshark, Justin.TV, KISSmetrics, Omnisio, reddit, Weebly, WePay. A lista é maior porque são 33 histórias.

Difícil falar do livro omitindo o Y Combinator. Trata-se de um programa de incentivo criado por Paul Graham. Duas vezes ao ano investem uma pequena quantia (média $18K) em um grande número de startups. Estas se mudam para Silicon Valley por três meses, período em que recebem treinamento e refinam o seu futuro lançamento para potenciais investidores. O ciclo termina com o Demo Day mas o network obtido nos três meses mais o próprio YC ajudam aos fundadores durante toda a vida da empresa. Desde 2005 o YC ajudou na fundação de mais de 380 startups tais como Scribd, Disqus, Dropbox, Heroku, Posterous e muitas outras incluindo algumas com fundadores entrevistados no livro.

No Brasil também existem vários projetos de incentivos para startups. Um programa de ajuda e incentivo que já me chamou a atenção e até fui a um Demo Day, é o StartupFarm. Aconteceram edições em São Paulo, Rio e Minas Gerais reunindo gente do Brasil inteiro e agora está com inscrições abertas para Brasília.

Dentro da Concrete Solutions foi criado o Fundo Moonlight com o objetivo de investir em novos negócios geridos pelos funcionários. Já são 3 projetos gestados. Empreendedorismo e lean startup são conceitos estudados e discutidos por aqui. Temos exemplos entre outros, do Fernando de La Riva que escreve artigos e dá palestras. Vários dos nossos clientes são startups e precisamos estar aptos para ajudá-las a se tornar casos de sucesso. Porisso esta é uma das áreas que mais nos preocupamos em compartilhar conhecimento. Representa metade dos motivos da criação do BizAgility e do porquê de trazer gente de renome internacional como Ash Maurya para falar no Brasil.

Jared Tame, autor do Startups Open Sourced, entrou para o Y Combinator antes de se formar. Para encontrar outros alunos da UIUC que liam o Hacker News e descobrir quais projetos estavam envolvidos, criou o Hacker News Directory em um fim de semana. Achar bons sócios sempre foi uma preocupação sua e possivelmente de muita gente. Depois de entrevistar todos estes fundadores para seu livro e perceber que muitos encontraram seus sócios por acaso, lamenta ainda não poder dar uma dica prática.

 

Dados tirados do livro Startups open sourced

 

 

O livro, uma espécie de Founders at work (ou de Web 2.0 Heroes) só com startups, conta muitas histórias interessantes e deixa algumas coisas para pensar. O autor criou uma terminologia para rotular os entrevistados. Me pareceu interessante agrupar e somar os totais debaixo de alguns desses rótulos. Aí vão os resultados.

Atenção que dentre os 33 entrevistados alguns exerciam mais de um papel e eventualmente aparecem sob mais de um rótulo.

Totalização segundo o papel principal do fundador na criação do site:

    programmer = fundador que escrevia código = 21
    designer = fundador que projetava interfaces ou era responsável por UX = 6
    businessperson = fundador que lidava com operações e negociações = 10

Totalização em relação aos estudos universitários:

    Undergrad founder = fundador que começou sua startup antes de se formar = 16
    Dropout = fundador abandonou a escola para fundar sua startup = 5
    Anti-school = fundador que mencionou que faltava aulas = 3
    School worker = fundador que trabalhava enquanto estudava para pagar seus estudos = 4

Totalização de acordo como levantou capital

    Self-funded = fundador que não levantou dinheiro externo = 6
    Funded = fundador que pegou dinheiro com angel investors ou com família e/ou amigos = 4
    VC funded = fundador que pegou grande soma com VC investors = 17

Totalização das empresas que foram adquiridas

    Acquired = fundador teve sua empresa adquirida = 6 (5 no livro e uma depois dele publicado)

Totalização dos que participaram dos batches do Y Combinator

    Y Combinator = fundador ou a empresa participou de um Y Combinator batch = 21

Agora uma classificação minha tirada do texto. Queria saber quantos deles tinham aprendido sobre empreendedorismo na faculdade. Será que sairá daqui alguma resposta de como o Brasil poderá vir a ser um país de empreendedores?

    – Totalização dos que tiveram aulas de empreendedorismo = fundador que obteve ensinamentos e incentivos para empreender durante seus estudos = 6

Puxa, que decepção, apenas 6 em 33 aprenderam alguma coisa na escola sobre empreender. Pelo livro este não foi um diferencial. E é até possível que no Brasil os números não sejam muito diferentes.

É claro que ainda continuo acreditando que nossas escolas poderiam ajudar neste quesito. Mas algumas são tão deficientes na passagem dos conhecimentos básicos que realmente não será desta cartola que sairão coelhos.

 

Qual dado do livro pode ser um indicador válido sobre a tal questão de virar um país de empreendedores?

 

Só para deixar claro. Isto aqui não é uma pesquisa científica. Afinal estou me valendo apenas de um livro de entrevistas.

 

 

Três outras coisas me chamaram a atenção neste livro:

  1. 1 – Muitos fundadores são filhos de gente que não tinha patrão
  2. 2 – Muitos fundadores começaram a empreender quase que desde criança
  3. 3 – Quase todos os fundadores falaram da importância do network

Do item 3 falarei na conclusão.

Do item 1 eu sei bem. Meus pais foram do tipo de gente que faz concurso. Gente que persegue uma carreira de longo tempo reclamando da burocracia, dos chefes, da politicagem nas promoções injustas, da falta de recursos e muitas coisas mais. Gente que apenas sobrevive durante 35 anos em busca de uma sonhada aposentadoria. Isto se não acontecer o mesmo que ocorreu com meu pai: quando se aposentou recebeu um diagnóstico equivocado de doença cardíaca e não pode curtir 100% a tal aposentadoria.

Ora, como eu devem existir muitos. De casa meu exemplo não foi de empreender. Me lembro que nos meus tempos de criança muitos empreendedores nem eram bem vistos. Dificilmente um dono de padaria ou de sapataria, por mais bem sucedido que fosse, conseguiria bolas brancas para entrar de sócio nos clubes mais chiques. O que prevalecia era a ditadura da mediocridade e do preconceito. Mais valia um herdeiro vagabundo e fracassado do que um empreendedor de sucesso. Não sei até que ponto isso mudou nos grandes centros do Brasil. Espero que seja apenas uma triste lembrança dos tempos antigos.

O item 2 aborda outro preconceito do meu tempo: qual criança iria para frente de casa vender limonada? E qual adolescente trabalharia nas férias de verão fazendo web sites para o comércio da esquina, vendendo camisetas ou consertando computadores? Algum tio idiota logo diria: este menino precisa viver, se divertir, isto não dá futuro.

O que os itens 1 e 2 me levam a pensar? Que a minha geração tem uma enorme parcela de culpa pelo fato do Brasil ainda não ser um país de empreendedores. Gente do meu tempo foi educada para arranjar um bom emprego. E pior, educou os filhos a andar pelos mesmos caminhos.

A esperança não está nos que estão repetindo caminhos buscando vaga em emprego público. Está nos corajosos que tentam e estão educando com exemplos.

 

Conclusão

 

Se acreditamos que é bom fomentar o empreendedorismo para que gente de coragem crie negócios (consequentemente empregos), o mínimo que podemos fazer é não atrapalhar. Não agir de forma preconceituosa e evitar palavras que desanimem os que tentam.

Mas podemos ir além disso. Como citei no item 3 da lista anterior, a maioria dos fundadores falou no livro da importância do network. De como foi bom se reunir com gente passando ou que já tenha passado pelos mesmos problemas. E até da possibilidade de encontrar potenciais sócios.

Talvez uma das lições do livro sobre o que fazer para incentivar o empreendedorismo seja propiciar network.

Aqui em São Paulo em 2011, o Juan Bernabó deu um primeiro passo para reunir gente com interesses comuns em startups. Na primeira reunião compareceram cerca de 40 pessoas. Pena que a segunda nunca aconteceu.

Há pouco mais de um mês atrás fiquei sabendo de um grupo bem grande de empreendedores e candidatos a isto, que se reunem uma vez por mês aqui em SP. Trata-se do BRNewTech que contava com 1788 integrantes enquanto este post era escrito. Nesta próxima 5a feira dia 01/03 haverá mais uma reunião e eu vou. Será no auditório da Microsoft às 19 horas. Os detalhes estão em https://www.meetup.com/BRNewTech/. É mais uma importante oportunidade de network. Este tipo de iniciativa merece apoio.

Também não tenho a menor dúvida de que o workshop do Ash Maurya no BizAgility será uma outra excepcional oportunidade de network.

 

Nos veremos lá.