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Corrida de resistência, não de velocidade

  • Blog
  • 19 de Junho de 2012
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Se eu tivesse apenas um conselho a dar a um jovem empreendedor no Brasil seria: tenha plena convicção de que você está entrando numa corrida de resistência, não de velocidade.

Por favor, acredite nisso porque aprender na prática é bem mais difícil.

Vou dar um exemplo rápido de como é complicado empreender no Brasil. Segundo a Firjan o brasileiro, em média, gasta aproximadamente R$ 1.500 para abrir uma pequena empresa (podendo chegar a R$ 3.500, no máximo), o mais alto custo entre os BRICs (Fontes: Firjan e Banco Mundial).

Além disso, segundo estudo dos mesmos orgãos, no Brasil leva-se o dobro do tempo para se abrir uma empresa do que a média dos demais países sulamericanos.

Então, depois disso tudo você consegue fazer sua empresa operar e faz uma venda de um serviço, por exemplo. Considerando um prazo médio de recebimento de 30 dias, o que é absolutamente normal, antes de receber o dinheiro você tem que pagar no mínimo quatro impostos distintos, referentes a uma nota fiscal emitida mas ainda não recebida. Pois é…

Eu até tive a chance de aprender o quanto era preciso fôlego antes de montar a Concrete, mas infelizmente essa parte passou desapercebida. Meu avô, Gerdal Roma, é ainda hoje, aos 94 anos, um empreendedor. Como ele mesmo diz, encostou o umbigo no balcão aos 12 anos de idade e nunca mais o tirou de lá. Ainda tem uma loja de borrachas aqui no Centro do Rio de Janeiro, e mesmo com a idade avançada abre e fecha a loja todos os dias.

Foi lá que tive meu primeiro emprego, logo depois de começar a faculdade. Trabalhava à tarde, depois das aulas pela manhã. E o ensinamento estava lá. Meu avô já era um cara que abolia o desperdício. Nada que não fosse essencial ao cliente dele tinha espaço na sua administração. E todas as declarações e atitudes dele tinham relação com duas coisas: a necessidade de nos mantermos pessoalmente com o mínimo necessário e a perpetuidade da companhia. Ou seja, ser reducionista e colher os frutos a médio prazo.

Uma corrida de resistência, não de velocidade.

E eu aprendi isso na prática.

Saí da loja do meu avô para começar minha carreira como estagiário da Mesbla. De lá fui para a Globo, depois a Globosat, Lafarge e Teknoland. Comecei como estagiário, passei a analista júnior, sênior, coordenador, gerente, controller e CFO. Cumpri cada etapa de seniorização corporativa mas aprendi na pele que a corrida para empreender exige muito mais disposição.

Não se iluda, se você tem um plano para empreender (e é fundamental que você tenha um), o plano vai furar. Por mais pessimista que você ache que esteja sendo, não está sendo tão pessimista quanto precisaria ser para medir o fôlego necessário. É natural.

A Concrete nunca foi uma empresa que teve os chamados “rounds” de financiamento, hoje famosos usando termos em inglês como “seed” e “venture” , mas que já existiam com nomes em português desde o tempo em que meu avô montou seu negócio com dinheiro emprestado do português dono da padaria da cancela, em São Cristóvão.

Nós montamos a companhia com dinheiro próprio e a administramos com dinheiro próprio e de terceiros, mas o dinheiro de terceiros era todo de passivo, ou seja, atrasávamos algumas das contas que tínhamos que pagar.

Isso doeu muito no bolso dos sócios, que obviamente vinham no fim da fila. Primeiro tínhamos que pagar os funcionários, depois os impostos trabalhistas e tributos, depois os fornecedores essenciais, passando pelos fornecedores não essenciais e finalmente nós. Bom, é claro que na maioria das vezes a fila não chegava ao fim.

No auge dos problemas financeiros derivados deste início complicado eu me lembro que acreditava ter R$14 na minha conta do banco e nada na carteira. Isso mesmo, R$14. Então eu precisava passar no caixa eletrônico para sacar R$10 e ir embora para casa, ao final do dia. Quando cheguei no caixa eletrônico havia sido debitada aguma tarifa bancária e eu tinha R$9 em vez de R$14… Tive que entrar na fila do caixa para sacar os R$9, visto que a menor nota que se podia sacar no caixa eletrônico era de R$10. Meia hora na fila e o constrangimento de querer sacar R$9 da conta. Um episódio como este não se esquece.

É verdade que este foi o pior momento. A Concrete logo conseguiu passar a pagar toda a fila de prioridades, zerar seu passivo e crescer. Mas daquele momento ficaram dois aprendizados inesquecíveis: o primeiro é que se eu não estivesse psicologicamente preparado para resistir, naquela hora teria desistido, porque graças a Deus eu sempre recebi propostas para voltar ao mercado de trabalho.

O segundo é que cada real de desperdício pode fazer falta no futuro. Não que naquele momento fôssemos sequer capazes de desperdiçar algo, mas quando se passa por um momento como este, custos fixos passam a ser inimigos mortais. Para sempre.
A queda quando você está em alta velocidade é sempre mais traumática.

E este talvez seja o maior dos conselhos a quem quer empreender: prepare-se para correr uma longa maratona. Vai faltar água, vitamina, você vai querer desistir, mas se for até o final vai se sentir recompensado…