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Inteligência emocional e o empreendedor – parte 2

  • Blog
  • 3 de Julho de 2012
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Na semana passada falei sobre inteligência emocional como tema da minha tese de mestrado e a tentativa de relacionar fatores ligados a este tema com o sucesso do empreendedor brasileiro. Curiosamente o maior elemento de destaque na minha pesquisa foi a instabilidade emocional do empreendedor de sucesso brasileiro.

Passamos um bom tempo tentando decifrar, cruzando outros dados, a razão deste destaque considerável a um fator que normalmente nos remete a coisas ruins. Ser instável emocionalmente quase sempre lhe trará prejuízos sérios no trabalho e na vida pessoal. Mas enfim, este foi o que mais chamou a atenção.

O resultado desta análise pode então nos levar a entender que o empreendedor é extremamente afetado por fatores externos, econômicos ou sociais, o que faz com que eles monitorem melhor as forças do ambiente para melhor responder a estes fatores e, neste processo, também desenvolvam a crença de que o ambiente tem maior preponderância sobre seu destino do que ele próprio.

Da mesma forma, a maior instabilidade emocional e o melhor desempenho de gestores podem ser ambos causados pela tendência à reatividade às situações, que apesar de marcar suas personalidades pela inconstância e susceptibilidade ao estresse, também se traduziria numa uma maior agilidade e/ou adaptabilidade ao ambiente.

O ambiente de preocupação do empreendedor tende a ser maior do que o do funcionário tradicional. Espera-se que ele passe a se preocupar com o mercado, com fatores econômicos, sociais e políticos que possam afetar seus negócios. Mesmo com estes fatores estando além de sua capacidade de atuação, sua reação a eles poderá fazer a diferença no seu negócio.

Sob este aspecto consigo compreender que uma dose de instabilidade emocional, aplicada de forma correta sobre o ambiente do seu negócio, possa garantir a agilidade necessária para um constante processo de adaptação em ambiente competitivo.

Faz bastante sentido para mim e, mesmo sugerindo que houvesse uma continuidade neste aspecto da pesquisa, conclui que havia uma maneira positiva de avaliar a influência da instabilidade emocional sobre o empreendedor. E segui em frente.

Mais componentes, estes menos surpreendentes, surgiram como resultado da minha pesquisa. Pareceu existir uma relação significativa entre a sobrevivência do negócio e fatores como foco no trabalho, autoemoção e propensão ao risco.

Esta relação parece ainda mais forte para o primeiro fator, o que pode significar que os empreendedores brasileiros precisam de fato trabalhar muito, principalmente nos primeiros anos de vida do seu empreendimento.

É de conhecimento público, confirmado em várias declarações de alguns dos principais empreendedores do Brasil, que todo empreendimento próprio demanda excesso de participação e disposição para que o mesmo ocorra. Nesta amostra isso também pode ser exemplificado, para reforçar a tese, pelo alto percentual (praticamente 90%) das declarações.

Além disso, os resultados observados parecem comprovar a proximidade entre os conceitos de empreendedorismo e traços de propensão ao risco. Aparentemente, a propensão ao risco é um traço preponderante entre os empreendedores que estão abertos por mais tempo e que, portanto, ultrapassaram a barreira da sobrevivência.

Finalmente observamos a influência positiva da variável autoemoção, que denota fundamentalmente a capacidade do indivíduo em conhecer suas próprias emoções. Conhecendo-as, o empreendedor poderá antecipar suas reações a problemas futuros e, assim, encontrar um fator facilitador de suas interações intra e inter-organizacionais, favorecendo também o planejamento e controle dos seus próximos passos.

Apesar de ser um post menos baseado nas minhas experiências de Concrete Solutions do que derivado de uma pesquisa quantitativa de mestrado, podemos tirar muitas conclusões do que lemos aqui. E a primeira delas é a mais importante: se você não se encaixa neste perfil de empreendedor, não significa que não dará certo.

Até acredito, e aí é apenas uma crença pessoal, que conhecer e controlar suas emoções seja fundamental para conseguir vencer a corrida de resistência. Se você não conseguir controlar o que sente, é mais fácil desistir ou tomar decisões desesperadas na hora da crise. Mas quando olhamos para o mercado enxergamos vários exemplos de pessoas que conseguiram compensar “falhas” em uma determinada faceta de sua personalidade com criatividade, trabalho e coerência.

Porém, de uma coisa eu tenho certeza: se você não gosta de arriscar, talvez seja bom não empreender.

 

PS. Este post é o resumo de um dos capítulos do livro “Empreendendo no Brasil”, que espero lançar em breve.