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Empresas com financiamento – lucratividade ou expansão?

  • Blog
  • 8 de Agosto de 2012
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“Tínhamos que definir nossa trajetória de crescimento e quão rápido ela ocorreria, mas descobrimos que aquilo estava um pouco superestimado.” (Niklas Zennstrom, co-fundador do Skype)

Nesta semana voltamos a falar sobre financiamento e estratégia de uso de dinheiro, desta vez focando nas empresas que eu chamo “financiadas”; ou seja, aquelas de gente que com dinheiro próprio ou de terceiros financiou seu negócio a ponto de não exigir rentabilidade desde seu início. Este empreendedor, portanto, pode definir sua estratégia sem levar em consideração a obtenção rápida de breakeven (https://en.wikipedia.org/wiki/Break-even).

Existe uma tensão saudável entre lucros e crescimento. Uma empresa que tem por estratégia crescer, ocupar mais espaço, normalmente sacrifica primeiro boa parte de sua geração de lucros. Existem muitas formas de se fazer isso: baixar preços para vender mais, aumentar custos de marketing e divulgação, aumentar estoque, aumentar equipe de vendas, etc. Para financiar essa necessidade de investimento, a empresa sequestra lucros do exercício financeiro vigente para que eles possam gerar ainda mais lucros em exercícios futuros.

Se esta empresa for financiada por terceiros, então ela normalmente trabalhará sem a obrigatoriedade de dar lucros no curto prazo para que possa, em algum momento, se apropriar do investimento. Com relação a isso podem aparecer as empresas “feitas para vender”, ou seja, empresas que por causa do financiamento derivado de sócios externos têm, por objetivo claro, crescer, aparecer e dar uma boa “saída” para seus investidores. Isso ocorre muito com dinheiro vindo de fundos de investimento, o que ainda é muito incipiente no Brasil (apesar deste momento de otimismo exacerbado).

É importante que se entenda que esta estratégia estará sempre ligada ao desejo dos sócios. Quais os objetivos da empresa? Os sócios pretendem vender a empresa em um ou dois anos? Pretendem criar um negócio perene mesmo que médio, com fluxos de caixa interessantes derivados da sua rentabilidade? Querem crescer organicamente ou se alavancar para isso?
Minha teoria é a de que a busca incessante pela lucratividade é imperativa mesmo em empresas financiadas por terceiros. O valor de uma empresa é quase sempre (salvo em casos estratégicos ou de risco diferente do habitual) igual ao valor esperado de todos os seus fluxos de caixa futuros descontados a alguma taxa de retorno qualquer. Então pode-se concluir que este valor é uma combinação de crescimento e lucratividade, visto que quanto mais você crescer, maior o valor absoluto do seu lucro, caso sua empresa seja rentável.

Uma boa empresa sobrevive tranquilamente a um período de margens baixas com objetivo de crescimento, mas não por muito tempo. Por exemplo, se você resolve usar parte de sua reserva de lucros para investir em marketing e vendas, vai reduzir suas margens. Até aí tudo bem, porque você espera recuperar isso e ganhar mais com o tempo. Quanto tempo?

Fazendo uma relação com o conceito de disciplina de execução, você precisa executar, garantir que os objetivos estão claros, cumprir o traçado e medir. Seu investimento em marketing e vendas pode não gerar o retorno esperado, sua empresa pode não crescer como você projetou e então suas margens reduzidas podem se perpetuar por quanto tempo você demorar a perceber que deu errado. Ou, talvez, você possa crescer, mas com margens baixas porque não investiu como deveria em se tornar mais rentável, o que irá impactar seu valor de mercado da mesma forma.

Existem as empresas inseridas em um conceito de mercado buscando crescimento, financiadas por fundos de investimento que pressionam por aumento de faturamento mesmo que em detrimento da rentabilidade. Esta corrida muitas vezes alimenta uma visão equivocada do mercado e tende a alimentar bolhas não produtivas. E a história da economia mostra que devemos proteger nossas empresas das bolhas.

Não acredito em venda por faturamento a não ser em mercados sob influência de bolha. E proteger a sua empresa disso significa ter foco na lucratividade e no superávit operacional. Empresas que são criadas com o objetivo único de aproveitar as bolhas são ativos tóxicos que acabam por retroalimentar a própria bolha até que elas estourem. São as empresas “feitas para explodir”.
Porém, como eu disse, a tensão pode ser saudável. É um processo cíclico de um lado devendo ao outro, comercial e operações contra finanças. Comercial quer investimento em marketing e vendas, operações querendo estoque para trabalhar e finanças querendo evitar exageros em ambos, muitas vezes tendendo a um reducionismo que pode, também, não ser o ideal.

Para Michael Porter a estratégia é impor limites (e ouvir o que Porter diz é sempre bom), escolher o que fazer sabendo o que não será feito e pesando as consequências de todas as situações.

Mas impor limites não o impede de crescer? Sim é a resposta, e aí vem o “segredo”: o objetivo da empresa é ser rentável e não crescer. De nada adianta crescer 50% se no final te sobram contas para pagar, clientes insatisfeitos, alta rotatividade de funcionários, clima corporativo negativo, estratégias sem fundamento e produtos incompletos. Um bom crescimento só faz sentido se estiver dentro de uma estratégia que prevê a sustentabilidade do negócio no longo prazo.

PS. Este post é o resumo de um dos capítulos do livro “Empreendendo no Brasil”, que espero lançar em breve.

Vitor Roma – Economista, mestre em administração e sócio-fundador da Concrete Solutions. Filho e neto de empreendedores, está neste mundo de administrar negócios próprios no Brasil há 20 anos.