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A quimioterapia do investidor

  • Blog
  • 23 de Agosto de 2012
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Vou começar o post de hoje contando uma história que está acontecendo agora. Um grande amigo, dono de uma marca muito legal de roupas e artigos no Rio de Janeiro, passa por dificuldades.

Ele tinha uma pequena loja que lhe garantia a sobrevivência do negócio e, na correta e absolutamente normal ânsia de dar um passo adiante, decidiu pela abertura de uma nova, no ponto comercial, talvez, mais valorizado do Rio de Janeiro. Um salto quântico em relação ao anterior, mas sem o necessário colchão para que seu fluxo de caixa sobrevivesse. Ou seja, passa por aperto de caixa sério e, pior, o aperto de caixa se retroalimenta. Em comércio, se você não paga seu fornecedor, não recebe novas mercadorias. Se não recebe novas mercadorias, não vende mais, e continua sem pagar seu fornecedor. Ciclo destrutivo circular, que se não for interrompido seguirá até que a empresa quebre.

Neste momento o cara tem duas soluções: ou dá um passo para trás, tira o time de campo e começa de novo; ou busca dinheiro de fora para seguir em frente. Se ele errou uma vez, significa que está mais perto de acertar.

Mas a situação atual é que ele tem uma proposta real de ceder 51% da empresa dele, que ele criou a marca, o modelo, o estilo e o jeito, por um dinheiro que salva a companhia, mas que está longe de representar o potencial de ganho que ele tem. Se aceitar, estará cedendo mais da metade do negócio que criou por um valor que poderá parecer absurdo em um futuro próximo. Se não aceitar, pode ver seu sonho morrer.

É a quimioterapia do investidor.

Hoje foram dadas nomenclaturas aos tipos de investidores. Existem os investidores de risco, fundos de investimento que buscam participações em empreendimentos de risco com grande potencial de retorno, os chamados Fundos de Venture Capital. Também surgiram os chamados Anjos, que de semelhante aos fundos de Venture Capital possuem apenas a mesma avidez por altos ganhos. Os Anjos contribuem com o chamado “capital semente”, ou seja, podem confiar numa idéia com mais ênfase no empreendedor do que no negócio.

O investidor Anjo é um cara que você pode, eventualmente, encontrar dentro da sua rede pessoal de contatos, dependendo do quanto você tenha sido capaz de construí-la. Como não existe um negócio ainda, o Anjo investe, na verdade, no empreendedor e no que ele enxerga como competência para fazer o negócio acontecer. O que o investidor não quer é participar da gestão do negócio. Isso ele normalmente deixa para o empreendedor conduzir, reservando para si apenas o papel de conselheiro.

Nos dois casos, ou em qualquer outro que possa vir a surgir, saiba que trazer um investidor ao seu negócio pode gerar um conflito de interesses real e presente nas decisões diárias: o investidor quer sair do negócio com o maior retorno possível, você normalmente quer investir nele para que ele se torne o mais sólido possível. Quase sempre isso não quer dizer a mesma coisa.

Claro, se você também montou seu negócio com objetivo de fazer um evento de liquidez e seguir a vida, se seu objetivo não é montar um negócio que perdure pela sua vida, pode fazer sentido a chegada de um investidor que te ajude a conseguir esse objetivo. Nesse caso os interesses estariam alinhados desde o início.

Porém, se você é um cara cujo empreendimento é seu plano de vida, e se tornou obrigatória a participação de um investidor para que ele aconteça (como no caso do meu amigo citado no início), nunca se esqueça de que ele é um tratamento por quimioterapia. Você precisa, mas o ideal é se ver livre dele.

PS1. Os Anjos podem também se organizar em fundos, como a Anjos do Brasil (www.anjosdobrasil.net) ou o São Paulo Anjos (www.saopauloanjos.com.br), que organizam eventos com objetivo de colocar em contato empreendedores com boas idéias e investidores Anjos.

PS2. Estarei de férias até a semana de 17 de setembro, retornando ao blog no dia 19.

PS. Este post é o resumo de um dos capítulos do livro “Empreendendo no Brasil”, que espero lançar em breve.

Vitor Roma – Economista, mestre em administração e sócio-fundador da Concrete Solutions. Filho e neto de empreendedores, está neste mundo de administrar negócios próprios no Brasil há 20 anos.