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A história secreta do Vale do Silício parte 2

  • Blog
  • 21 de Março de 2013
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Introdução

Na semana passada na Parte um desse post fizemos uma breve discussão sobre as raízes do Vale do Silício e quais foram as motivações dos que se envolveram na sua criação.

Contrário ao conhecimento comum , baseado em grande parte na pesquisa do Steve Blank, mostramos que existe muito mais do que a sequencia Gates, Jobs, Adreessen e Zuckerberg. E que antes de ser o Vale do Silício (da internet e dos PCs) como conhecemos ele foi o vale dos circuitos integrados e principalmente o vale de microondas.
Finalmente na gênese desta coisa toda estava o esforço de guerra americano inicialmente contra os Alemães na guerra aérea da Europa.

A primeira guerra eletrônica, a segunda guerra mundial

Os Aliados enfrentaram uma extensa e sofisticada rede de radares, baterias anti aéreas controladas por radar e caças também guiados da mesma forma.

Defesa aérea alemã

que controlava uma estrutura de defesa em múltiplas ondas inclusive com outros caças também providos de radar para interceptação noturna.

Ordem de interceptação

A resposta Americana, o escudo eletrônico

Para lutar contra esta ameaça foi montado o Harvard Radio Research Lab (RRL), laboratório ultra secreto com mais de 800 pessoas. Ele tinha como objetivos

  • Entender e mapear a rede de radares alemã
  • Reduzir as perdas para caças e defesas anti aéreas
  • Confundir (“jam”) a defesa aérea Alemã

RRL

Este trabalho se focou em algumas ações, a criação de embaralhadores de Radar (Jammers), uso extensivo de Chaff (partículas de alumínio para poluir a recepção do sinal e de plataformas de inteligência eletrônica (ELINT).

ELINT

O  Pai do vale do Silício

O Responsável pelo RRL e por toda a pesquisa de guerra eletrônica Americana era um professor de Stanford chamado Fredrik Terman. Fredrick era professor de engenharia em Stanford desde 1926 e entre outras coisas encorajou seus estudantes William Hewitt e David Packard a começar a HP. Apesar do esforço que gerou a bomba nuclear americana ter ocorrido em Berkley, a guerra aérea foi vencida por Terman.

Terman

O Pós guerra e Stanford

Até o final da Segunda Guerra, Stanford recebia uma quantidade irrelevante orçamento da OSRD (Escritório de Pesquisa científica e desenvolvimento).

A estratégia de Terman, para dar relevância a Stanford  foi recrutar onze pesquisadores do RRL e focar em micro ondas e eletrônica. Em pouco tempo Stanford era o MIT do oeste atraindo estudantes de todo o país.

Este movimento gerou a primeira geração de empresas saídas de Stanford, na área de componentes para microondas.

microwave valley

Stanford e a guerra fria

Stanford se tornou o centro de excelência para  Força aérea, marinha, NSA e a CIA com um laboratório de mais de 400 pessoas. Inteligência eletrônica e contra medidas se tornaram críticas e novamente, mapear o sistema de defesa aéreo russo.

USSR

Esse laboratório conseguiu feitos espantosos, como por exemplo utilizar a lua (sim você não entendeu errado,  a LUA) para refletir o sinal dos radares russos “Tall King” que assim denunciaram sua posição exata, um a um, com a rotação da terra.

Flower Garden

O Nascimento do Vale como conhecemos

Terman alterou as regras da Universidade de Stanford em relação a novas startups:

  • Estudantes de pós graduação são encorajados a criar empresas
  • Professores deveriam prestar consultoria externa
  • Terman e outros professores participariam dos conselhos
  • o licenciamento de PI e tranferencia de tecnologia foi facilitado
  • Sair da universidade era BOM pra sua carreira acadêmica e mais importante
  • O FRACASSO era aceito como parte da cultura.

Ao criar um ambiente favorável a inovação e empreendedorismo, Terman gerou um novo movimento de empresas nascidas de Stanford, agora focadas no setor militar.

Military Startups

A Primeira Onda do Vale do Silício

O ciclo agora consistia em empreendedores alavancando a estrutura universitária para criar empresas para o complexo militar industrial americano. O ambiente era favorável, a cultura já existia e a crise nuclear servia de estímulo.

1st wave

Lockheed Missile Systems

Em 1956 a Lockheed se estabelece no vale. Mais do que a empresa o projeto do míssil nuclear lançado de submarino (SLBM) Polaris. Eles colocaram definitivamente a palavra Silício no termo e chegaram em quatro anos a 20.000 funcionários (só para efeito de comparação a HP tinha 3000 na mesma época, 1960).

 A nova revolução, circúitos integrados

Do outro lado da cidade, em 1956, William Shockley, premio Nobel e responsável pelo laboratório de treinamento da força aérea e pela guerra anti submarino americana funda uma empresa.

Shockley

Chamado de “co-Father” do vale, e fundador da Shockley electronics, ele foi um dos inventores do transistor e prêmio Nobel. Conhecido por ter uma mente brilhante e um ótimo faro para talento, Shockley era também um péssimo administrador.

Este estilo levou a uma diaspora da empresa, “The traitorous Eight” saem da empresa e montam suas próprias startups, entre uma merece especial nota

  • A Fairchild semi conductor que foi a primeira startup de tecnologia com financiamento por VC (investidores de risco) .
  • Desta empresa saem Noyce e Moore e fundam intel
  • Deste DNA nascem mais de 65 empresas de Chips nos próximos 20 anos, incluindo AMD entre outras.

integrated circuits

A segunda onda do Vale, Capital de Risco

A partir de 1956 começam a ocorrer os primeiros IPOs na costa oeste, Variam, HP e Ampex, abrem capital e atraem a atenção dos investidores.

Inicialmente usando SBICs como veículos, o governo americano pressionado pelo lançamento do sputnick, investia junto com investidores privados a relação de 3:1.

Esta estrutura foi substituida pela de “limited partnership” onde fundos eram levantados de endownments de universidades, fundos de pensão e investidores qualificados e eram geridos por um gestor profissional. Nasce aí a figura do VC de tecnologia como conhecemos.

Fundos pioneiros como Draper Gaither & Anderson se estabelecem em 1958 seguidos de nomes conhecidos até hoje com Kleiner Perkins e Sequoia (já em 1978).

Esta nova onda tinha novos participantes, os fundos de VC e novos incentivos, a busca de retorno. Isto se adicionou a cultura pré existente e a dois outros fatores preponderantes, um sistema econômico previsível e a um ambiente de respeito a contratos gerando um novo surto de crescimento e inovação.

2nd wave

Conclusão

Os grandes responsáveis pela cultura empreendedora do vale (entranho quanto pareça)  são Terman, O governo americano e Stanford.

O primeiro grande patrocinador e cliente foi o governo, motivado pela crise e não pela busca de lucros. Esta motivação definiu a trajetória tecnológica do vale de micro ondas, circuitos, PCs e internet. Pela natureza sigilosa do trabalho havia muito pouca polinização cruzada e houve a criação de silos de conhecimento.

A passagem para o capital de risco privado do papel de principal financiador do vale muda os incentivos (retorno) e o foco, agora direcionado para aplicações corporativas e de consumo.

O grande aprendizado deste processo como um todo parece ser que para se haver inovação é necessário um conjunto de fatores sendo que os principais são cultura de risco, talento, associação entre academia e empresas, um ambiente de negócios estável com respeito a contratos e uma estrutura de financiamento compatível com o principal driver de inovação. No caso do vale foi primeiro o governo pela necessidade de sobrevivência e depois os capitalistas de risco na busca de lucro.

A última reflexão seria como esta estratégia pode ser analisada, entendida e replicada num esforço de criação de hubs de inovação no Brasil.