Concrete Logo
Hamburger button

Porque o Yahoo comprou o Summly e a cultura do TL;DR

  • Blog
  • 2 de Abril de 2013
Share

“The TL:DR culture, it’s really not ok to act functionally illiterate when you’re not actually illiterate, when an advanced society that once put a man on the moon worked so hard to educate you” 

“Summly’s entire business model seems to revolve around catering to this demographic. Frankly, it pains me”

Emin Gün Sirur

TLDR culture

Este artigo foi originalmente publicado em alguns portais na sua forma reduzida, alguns elementos adicionais foram inseridos e posições foram reforçadas.

A grande notícia da semana para o setor de tecnologia foi a aquisição do aplicativo Summly, criado por um garoto de 17 anos, Nick D’Aloisio, pelo Yahoo.

A operação foi muito comentada pela pouca idade do fundador, mas também amplificada por ,basicamente, dois motivos: primeiro, o Yahoo está sendo gerido por Marissa Mayer, uma das mulheres mais influentes do mundo da tecnologia, e segundo, o preço foi de US$ 30 milhões, pago 90% em dinheiro por uma empresa de 18 meses, com cinco funcionários e um produto com alguma tração, mas ainda sem receita. Depois da assimilação da notícia, uma das perguntas que me surgiram e não foram abordadas pela mídia é: por que o Yahoo comprou o Summly?

São vários os motivos que levam uma empresa a uma aquisição estratégica deste tipo. Entre as principais podemos citar

  • receita,
  • fluxo de caixa,
  • o produto em si (por uma patente ou vantagem competitiva não copiável),
  • a base de usuários,
  • o time e
  • a capacidade de influência dos investidores de risco.

Analisando os dois primeiros, concluímos que o produto não gerava nenhum tipo de receita. Considerando que o caminho de uma startup de tecnologia é buscar tração, monetização e por fim a rentabilidade, se o Summly não tem receita também não tinha um fluxo de caixa livre positivo que motivasse uma compra.

Tirando, então, os fatores financeiros clássicos, podemos entrar mais profundamente no produto. Será que o Summly é realmente um produto “matador” e traz uma tecnologia não copiável ou uma barreira de entrada forte? A resposta também é não. O que o nosso gênio adolescente fez foi licenciar (como disse Emin Gün Sire, professor de Berkley em seu blog) a tecnologia de processamento de linguagem da Stanford Research Institute, empresa sem fins lucrativos que fez o spin off da empresa que criou o Siri e foi comprada pela Apple em 2010. Ou seja, por trás do sucesso do Summly está a mesma tecnologia que faz a Siri entender o que você fala.

SRI: Siri

Como disse Cris Taylor em um artigo na Mashable (citando novamente Emin), é como se um engenheiro tivesse pegado um motor de moto japonês de último tipo, colocado umas peças mal encaixadas e feito uma blitz de marketing. Ou seja, qualquer um de nós pode ser um criador de sucesso se utilizando de tecnologia pré-existente. É o que ele chamou de luta entre a “cola” e o “pensamento”: cola é fácil de copiar, pensamento ou inovação é o que normalmente move empresas de sucesso. O Yahoo mandou uma nova mensagem, que além de avaliar talento na sua estratégia de fusão e aquisição, ele avalia melhor o imediatismo do que inovação real.

Outra justificativa seria a base de usuários do Summly, formada por quase um milhão de pessoas. Sem se aprofundar na qualidade destes usuários e na taxa de perda (churn), poderíamos concluir rapidamente que Marissa estaria pagando um custo de US$ 30 pela aquisição de cada cliente. O que invalida esta hipótese é que a primeira coisa que o Yahoo fez foi retirar o app da Appstore, o que fez que ele não se apropriasse da mídia e do “hype” gerado pela aquisição, além disso quem não teve a presciência de baixar o aplicativo não pode baixar agora para entender do que se trata.

Para que o motivo seja o time, este tem que ser brilhante. Um garoto de 17 anos que conseguiu estar no meio deste acordo tem que ser brilhante. O problema da lógica de “Acqui Hiring” (compra justificada pela contratação do time de excelência), é que o Summly tem só cinco engenheiros (contando com Nick D’Aloisio, o fundador) e só dois dos quatro remanescentes serão funcionários do Yahoo. Pagar US$ 10 milhões por engenheiro e ter um deles trabalhando em tempo parcial está longe de ser uma compra ortodoxa.

Por sua vez, o time de investidores é pesado, capitaneado pelo 11o homem mais rico do mundo e fundador da Horizon Ventures, Li Ka-Shing e formado por celebridades investidores como Ashton Kutcher, Yoko Ono e Rupert Murdoch.

A análise disso é uma questão de opinião. Se você pegar o valor “antes de investimento” médio do Angellist (grande diretório e marketplace de startups e investidores) para quase todas as categorias você chega em US$ 4 milhões.  Tivemos uma saída de US$ 30 milhões, o que dá um múltiplo de 7X. O resultado é um ótimo retorno para um portfólio pessoal, mas não é o que busca um fundo de Venture Capital, que é mais na ordem de 30/50X em ciclos muito mais longos (por ex: sete anos). Também acredito que, em termos absolutos, o valor é pouco para o Horizon Ventures (o investimento inicial dele foi de US$ 250 mil) para justificar um grande empenho para viabilizar a venda para o Yahoo.

Por fim, se juntarmos todos os argumentos a única conclusão que podemos chegar é a de que Marrissa Mayer pagou US$ 30 milhões por um grande show de imprensa, mídia espontânea e associação da marca Yahoo a uma ideia de estado da arte de tecnologia. Poucas pessoas entendem o Vale do Silício como Marissa, então provavelmente no grande cômputo das coisas esse “PR Stunt”, como chamou a Mashable, esteja precificado corretamente.

Chris Tailor foi taxativo, enquanto o mercado estiver focado no aspecto de “conto de fadas” do deal o efeito é bom para o Yahoo. Por outro lado, o entendimento que pode passar rapidamente é que está se esbanjando dinheiro com um garoto de 17 anos por objetivos voláteis em vez de se comprar tecnologia realmente importante para o futuro da empresa.

Entretanto, é um sinal do que o Vale produz de pior, a lógica “built to flip”, ou seja, criar para crescer e vender, mesmo sem substância nenhuma. Foi isso que criou a primeira bolha e destruiu quase US$ 5 trilhões de valor de mercado entre 2000 e 2002.

Fonte:

  1. https://en.wikipedia.org/wiki/Dot-com_bubble
  2. https://www.sri.com/work/timeline
  3. https://www.reuters.com/article/2013/03/26/us-yahoo-summly-daloisio-profile-idUSBRE92P01C20130326
  4. https://www.examiner.com/article/yahoo-buys-summly-nick-d-aloisio-the-story-behind-summly-and-the-people
  5. https://mashable.com/2013/03/26/yahoo-summly/
  6. https://hackingdistributed.com/2013/03/26/summly/