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(2+2) Uma revolução por minuto

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  • 24 de Junho de 2013
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A tese:
O motivo para este texto tem relação direta com os protestos sendo realizados durante este mês de Junho de 2013 em todo o Brasil.
É a minha opinião de que o que estamos vendo é reflexo de uma mudança estrutural na sociedade e como consequência direta da natureza da Internet com sua comunicação livre. A meu favor (ou contra mim) conta o fato de eu ser usuário da Internet no Brasil desde 1993 começando com o meu modem de 14400 bps e ter a base do conhecimento técnico de como a rede funciona.

Introdução ao tema:
A Internet tem como base da sua formação a comunicação livre. O IP (Internet Protocol) catapultou o crescimento da Internet e em sua base há conceitos técnicos com enormes repercussões.
Um deles é a premissa de que a rede não é confiável (em sua capacidade física) e por isso, a Internet permite um estrutura distribuída em que cada parte dela funciona de forma independente. Da mesma forma, para acessar qualquer parte dessa Internet, é apenas necessário que você se conecte em qualquer outro ponto dela.
Não há um controle ou uma monitoria centralizada tomando conta da rede, estatísticas ou performance. Ao mesmo tempo, a anonimidade do envio das mensagens é relativamente grande. Para se fazer qualquer tipo de controle ou monitoria se torna necessário construir sobre a infraestrutura base (sem mudá-la) e isso não é tarefa fácil.
Uma outra característica importante é de que a rede IP é um rede best-effort. Ou seja, em condições normais, ela entrega a seus usuários toda a banda que tem disponível até que determinada transmissão de dados termine. Isso também tem grandes consequências para o nosso uso em que muitas vezes gostaríamos de ter uma banda garantida, ou determinado perfil de distribuição estatístico em vez daquilo que no Brasil se chama de acesso “banda larga”.
Grande parte dos esforços sobre a Internet nos últimos 40 anos tem relação com alguns destes fatores técnicos fundamentais, como por exemplo, como lidar com crimes “virtuais” em que a Internet é um meio habilitador (como identificar seus usuários e seus hábitos), ou como fazer streaming de Videos ou Audio em um rede fundamentalmente não desenhada para isso.
Voltando ao tema, a característica distribuída da Internet facilitou muito sua adoção em todo o mundo. Esta facilidade para aderir é provavelmente o maior fator para o seu sucesso ao se comparar com outras tecnologias concorrente e muitas vezes mais “completas” ou “sofisticadas”.
É através desta livre comunicação entre qualquer pessoa no mundo todo, sem a monitoria ou controle de uma entidade central que a Internet começou a revolucionar o mundo.
Não é por acaso que há uma vontade estratégica de se monitorar a Internet com o grande firewall da China ou com o Prism americano.
Fica na história da Internet que as primeiras relações que mudaram foram as acadêmicas. Pesquisas de cientístas de todo o mundo começaram a ser compartilhadas em formato eletrônico levando a colaborações mais rápidas e também de áreas de conhecimento diferentes.
Se tornou impossível ser um cientista sem a troca de informações da Internet. Se um matemático na Rússia escreveu uma tese com conclusões iguais a sua, a originalidade do seu trabalho virou pó e também o seu doutorado. Ao mesmo tempo, este trabalho servirá como ponto de partida de sua nova tese.
Sem considerar um julgamento de valor, sem dizermos se mudou para algo melhor, é evidente que todos os aspectos das vidas das pessoas estão mudando a partir desta livre troca de informações.
Ficou evidente no comércio B2B e B2C. Jeff Bezos saiu da venda de livros a partir de sua garagem para dono da #43 empresa com maior valor de mercado no mundo e a #3 em inovação de acordo com a revista Forbes (Maio 2013).
Mudou a indústria fonográfica (que ainda tenta se adaptar) e levou a Apple de Steve Jobs ao maior valor de mercado do mundo. Ainda lembra do surgimento do IPod + ITunes ?
Mudou a indústria cinematográfica, mudou e está mudando a midia. Lembra quando a AOL comprou a Time Warner ? Só para lembrar, a Time Warner é dona (dentre outras) da CNN, e claro, revista Time com sua capas icônicas e dos estúdios Warner com mais prêmios de cinema do que posso contar.

A sociedade:
As tentativas de representação das relações sociais são o mais recente, englobando o que talvez seja a última fronteira de revolução da Internet, a revolução das organizações humanas.
Facebook, Twitter, Linked In, Pinterest, Google+, blogs, todos dão abrangência ao individuo, de forma livre e muito barata.
No Brasil, vemos o humor ressurgir com mais liberdade e com interação direta do humorista com o público.
A semana da comédia ou o sucesso do porta dos fundos são sinal dos novos tempos.
Nos EUA, as campanhas de eleição (2008) e reeleição (2012) de Barack Obama foram marcadas por inovadoras estratégias online. Na campanha de 2012 Obama bateu o recorde de número de doadores e com isso também conseguiu superar a arrecadação de seu rival republicano Mitt Romney.
As revoltas no Egito de 2011 e os acontecimentos mais recentes na Siria são também evidências do poder de mobilização que esta nova democratização tem.
No momento em que os jornais impressos estão acabando, faz sentido que uma lei exija a publicação em papel (como faz o artigo 289 da lei das S/As) ?

O movimento:
Estamos vendo centenas de milhares de manifestantes nas ruas em diversas cidades, em um movimento que no primeiro olhar se iniciou em São Paulo a partir de um aumento de R$ 0,20 (cerca de $ 0,09) nas tarifas dos ônibus. Pareceu organizado pelos apartidários do movimento Passe Livre.
Ao mesmo tempo, o que está evidente ao se acompanhar as notícias, é que este movimento não é tão simples assim. Não é por R$ 0,20, e não é liderado por partido, ou pela iniciativa de um pequeno grupo. Dentro dele, centenas de milhares de pessoas se juntaram para protestar, e muitas vezes, com opiniões completamente opostas. Em conjunto uma insatisfação grande, cada um com a sua.
Veja o trabalho de Fabio Malini analisando os trends e mostrando uma compreensão um pouco melhor dos recentes acontecimentos.
É claro que autoridades, a midia e nossas organizações democráticas estabelecidas querem negociar e entender o que está acontecendo. Como tradicionalmente se faz no Brasil, procuram uma liderança para entender e conversar, tentam fazer sua cobertura jornalística, organizar, talvez controlar. Enfim, cada um com suas iniciativas e interesses.
A geração anterior e que estabeleceu a base democrática que hoje temos tem dificuldade para compreender o que está acontecendo. A nova democracia que está surgindo não se comporta na existente. Há um atrito.
Que instituição compreendeu que é necessário olhar a social media. Tenta-se compreender o que está acontecendo com pesquisas de opinião ?

O caminho:
A Internet é um instrumento de revolução em diferentes indústrias, e também na organização da sociedade. Mudou nossa sociedade e está aqui para ficar, as outras estruturas é que precisarão encontrar um meio de comportá-la ou correr o risco de serem extintas. Ainda tem CDs em casa ?
O caminho que seguiremos é incerto.
No Egito houve uma substituição de governantes, mas ainda não está claro se novas estruturas serão criadas para dar sustentação a uma democracia pós Internet.
A nova geração quer uma participação direta e livre para opinar. Isso é claro, abre muitos caminhos possíveis, com alguns piores que outros.
Se a participação direta for estruturada como a vontade da maioria, destruiremos o poder das instituições e a proteção à minorias terá um retrocesso enorme (é o potencial para a ditadura da maioria).
Se a participação direta for organizada em um investimento no diálogo o poder de evolução social é enorme, como em toda revolução que vimos na Internet até hoje.
A compreensão do que está acontecendo é fundamental para que tenhamos uma transição com menos atrito, e também para obtermos um resultado que fuja do perde-perde. Para que seja um ponto de equilibrio novo previamente desejado.
Como cidadãos nesse novo mundo, nos resta agir no surgimento de uma nova estrutura de comunicação (que é inevitável), mas principalmente lutar para garantir que a democracia continue firme e forte no nosso Brasil.