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Estamos vivendo uma nova bolha de internet?

  • Blog
  • 24 de Março de 2014
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*Artigo publicado originalmente na Exame.com.

As bolhas são caracterizadas por uma avaliação irracional de uma determinada classe de ativo que desrespeita os seus fundamentos, ou seja, a expectativa futura de fluxo de caixa. O Professor Jean Paul Rodrigue, da Universidade de Hofstra, observou em um diagrama clássico que as bolhas têm quatro fases: invisível (stealth), de consciência (awareness), de euforia (mania) e a explosão (blow up). Steve Blank, professor de Stanford, declarou em 2011 que estávamos entrando na fase de Euforia.

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Recentemente, os IPOs do LinkedIn e do Facebook, a recusa da oferta de mais de US$ 2 bilhões pelo Snapchat, a aquisição do Instagram por US$ 1 bilhão, do Waze por R$ 1,3 bilhão e do Nest por US$ 3,2 bilhões (estas últimas pelo Google) – e principalmente a compra do Whatsapp pelo Facebook por US$ 19 bilhões – acenderam uma luz de alerta e muitos começaram a se perguntar se estamos no caminho de uma nova bolha.

Causas

Segundo um artigo do serviço de pesquisa do congresso americano de janeiro de 2014, o balanço do FED quadruplicou desde a crise de 2008, chegando a 4 trilhões de dólares, associado a uma meta de juro zero. Este processo, chamado de afrouxamento quantitativo, dá sinais de diminuição devido à retomada do nível de emprego no mercado americano, o que está afetando diretamente as expectativas de uma eventual reversão do fluxo de dólares no mundo, o que nos afeta (Brasil) diretamente.

Segundo o investidor Fred Wilson, a relação entre earnings e preço da ação deveria ser aproximadamente a taxa de juro anual do título do Banco Central Americano. Como o FED está com a política de juros zero, teoricamente o preço das ações que dão algum retorno poderia ser infinito, o que obviamente não acontece na prática.

O problema de estímulos keynesianos deste tipo não é se eles vão funcionar no curto prazo (o efeito da crise de 2008 foi muito atenuado e a confiança voltou) mas, como não houve o ajuste pós crash, a próxima crise será maior ainda e o mercado fica “viciado” na oferta farta de dólares. Neste caso, retirar os estímulos será uma tarefa dificílima herdada pela Janet Yellen (nova presidente do FED).

A política monetária frouxa é como cerveja de graça em uma festa: todo mundo fica feliz e você se diverte com pessoas que talvez, em um ambiente mais sóbrio, você não se envolveria – os chamados “maus investimentos”. No dia seguinte vem a ressaca e você tem duas opções: passar um dia péssimo e se prometer que vai maneirar na bebida ou acordar bem no dia seguinte e tomar cerveja de novo, o que parece que elimina os sintomas da ressaca, mas na verdade te faz mais mal ainda e torna a próxima ressaca muito pior (até você acabar no hospital). Bolhas em sequência, sem ajuste, são cada vez mais fortes e afetam cada vez mais pessoas.

ressaca

Sintomas de bolha em tecnologia

Os sinais mais preocupantes são a relação de price earnings de empresas listadas, o aumento de veículos de investimentos e o próprio volume desses investimentos em venture capital. Somado a isso, os processos de fusão e aquisição de empresas de tecnologia jovens e sem fundamentos sólidos (faturamento, por exemplo) têm rompido com facilidade a barreira de um bilhão de dólares. Antigamente, as empresas de tecnologia que rompiam essa barreira eram chamadas de unicórnios pelo setor de venture capital. Hoje, pelo visto, os unicórnios estão bem maiores.

unicórnio

Outros sinais mais sutis são a dificuldade de contratar mão de obra técnica no Vale do Silício e o preço dos imóveis por lá, além do que chamamos de ajuste de risco otimista do mercado de trabalho, no qual uma quantidade excessiva de pessoas estão trabalhando para empresas que dão prejuízo e que quebrariam se as condições mudassem.

Diagnóstico

Se analisarmos os sintomas e que o fato gerador (excesso de dólares) existe, a resposta é sim, estamos em uma bolha de tecnologia. Se verificarmos a relação de P/E (Price/Earnings Ratio) de companhias de tecnologia mais tradicionais como Google, Yahoo e a Apple, não vemos nenhum número fora do comum: 12,43 para a Apple, quase 22 para o Yahoo e 32 para o Google.

Só para comparação, o P/E médio da S&P nos últimos cem anos é de 16, número que em 2000 (antes da explosão) era de 44. Quando falamos de redes sociais, os sintomas ficam mais fortes: a relação P/E do LinkedIn passa de 710, enquanto a do Facebook está perto de 100, o que demonstra uma expectativa irreal de ganhos futuros e de crescimento.

Entretanto, este diagnóstico vale muito pouco se não for associado a alguma previsão de quando a bolha vai estourar. Isso porque os agentes econômicos não deveriam se abster de participar do mercado sob pena de perder as oportunidades de ganho existentes. Alan Greenspan falou exuberância irracional em 1996, e a bolha apareceu quatro anos depois. Os investidores de risco que saíram depois desse alarme perderam os três melhores anos de retorno que a indústria já teve.

No Brasil, esta análise não tem mérito, porque temos questões anteriores mais prementes. O tamanho do investimento em venture capital no Brasil é muito baixo, tem pouca liquidez e poucos negócios. Mesmo que possamos ter ativos super avaliados no país o efeito desta “possível” bolha é irrelevante.

Conclusão

Se por um lado podemos considerar que existe uma bolha de tecnologia nos EUA e que não conseguimos prever quando ela vai estourar, por outro podemos dizer categoricamente que não existe uma bolha de tecnologia no Brasil, talvez pelo motivo mais simples: não existe ainda um mercado de tecnologia relevante no Brasil: outros fatores que impedem o florescimento do mercado vêm antes, como a inexistência de saídas e consequente falta de liquidez, a intervenção estatal no ciclo de venture capital e a falta de mão de obra qualificada, associada à inexperiência dos empreendedores.

Mas não temos só notícias ruins: o ecossistema amadureceu muito e temos hoje tanto agentes de investimento atuando no ciclo de capital de risco quanto alguns milhares de empresas de tecnologia testando modelos de negócio e aprendendo em um mercado consumidor muito grande, o que são fundamentos necessários, mas não suficientes, para uma trajetória futura de sucesso.