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O Facebook e a “modernidade líquida”

  • Blog
  • 25 de Agosto de 2014
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Pode-se dizer que a criação do Facebook em 2004 por Mark Zuckerberg criou uma nova tendência de relacionamentos e comportamentos, que coincidem com características da pós-modernidade no quesito tempo-espaço. Afinal, nesta fase da sociedade pulula a tecnologia computacional, que gera experiências diferentes das que foram experimentadas por gerações anteriores. Isso se deve não somente pelo uso do computador, mas também pela interação que a Internet permite aos usuários. O Facebook, por ter surgido neste período, faz com que valores e sintomas desta geração contemporânea sejam revelados por meio da rede.

Neste sentido, uma referência é a metáfora da modernidade líquida, utilizada por Zygmunt Bauman.  Nela,  o autor faz alusão ao dinamismo do tempo e à adaptação às novas formas. Segundo ele, a tecnologia e a velocidade permitem a ampliação dos espaços e cada vez mais atividades simultâneas, o que pode ser observado nas ações decorrentes do uso do Facebook. O tempo pode ser definido como o aqui e o agora. A velocidade da informação, além de encurtar distâncias, cultiva no usuário hábitos de imediatismo, de pressa, de resultados presentes. O dinamismo se manifesta tanto na percepção do tempo quanto na efemeridade dos relacionamentos. É um aparente jogo de simultaneidade, em que o jogador encontra diversos meios para realizar múltiplas tarefas ao mesmo tempo.

liquida

Essa simultaneidade acaba otimizando os relacionamentos, tornando-os rápidos, objetivos e, em muitos casos, sem a necessidade de encontros face a face. No Facebook, o que acontece pode ser imediatamente compartilhado, o que gera um novo conceito de urgência: todos precisam saber, no momento exato em que acontece, o que determinado usuário faz, onde está e o que pensa.

Entretanto, é muito provável que, no âmbito virtual, este imediatismo não traga consequências duradouras. Pelo contrário, o urgente deixa de ser urgente à medida em que o objetivo é alcançado: visualização, curtidas e compartilhamentos. Todavia, o anseio pelo imediato torna-se um ciclo vicioso que acaba refletido nas atividades não-virtuais do indivíduo.

Afinal, essa nova forma de registrar o tempo por meio do Facebook não tem finalidade clara de memória. Passados dias ou semanas, o registro perde o valor e é substituído. Considerando que, no Brasil, um usuário investe em média 9,2 horas mensais acessando a rede, pode-se afirmar que o brasileiro tem um dia de trabalho por mês dedicados ao entretenimento virtual, dedicado a ações incertas, pois o usuário percorre o feed de notícias sem saber o que procura e o que verá exatamente.

vicio

O estudioso Boris Groys caracteriza este tempo excedente como improdutivo, desperdiçado e não histórico. Para ele, o tempo investido na visualização de perfis, memes e comentários de outros usuários, assim como jogos oferecidos pela rede, não alcançam uma finalidade sólida, com efeitos permanentes. Tais ações tendem a moldar um ciclo vicioso no usuário, que torna-se dependente da utilização do sistema. É um vício que gera uma falsa necessidade de ver e saber o que acontece no particular de seus amigos e colegas, da mesma forma que pode gerar uma dependência por determinado jogo/aplicativo. Como consequência, observa-se a procrastinação e a falta de concentração em atividades como estudo e trabalho.

Por fim, vale citar que a tecnologia e seus derivados também são responsáveis pela valorização da atualidade e os privilégios obtidos por meio dela, que antes não existiam, como a Internet móvel e a velocidade na troca de informações. A simultaneidade e a produção de usuários multifuncionais são consequências dessa tecnologia em favor do agora. Isso acontece quando o usuário é exposto às inúmeras possibilidades da rede, seja de se comunicar com diversos usuários ao mesmo tempo, jogar, ler notícias, ver vídeos, etc.

multitasking

Diversas atividades inseridas dentro de um mesmo tempo; registro imediato e incertezas com o futuro que geram um adiamento de reflexão com aquilo que é vindouro, são marcas da contemporaneidade. O Facebook e toda a tecnologia oferecida ao usuário manifestam um desejo de celebração do presente, e outras ferramentas são criadas para instigar cada vez mais o usuário a ser mais conectado. Criou-se um vício pelo presente e uma preocupação com o agora, cujas consequências ainda são desconhecidas. Só o devir dirá o que esse imediatismo acarretará.

Obs: Texto baseado no artigo “Aqui, Ali, Acolá, Agora: a Pós-Modernidade e o Facebook”, apresentado no XVIII Congresso de Ciências da Comunicação na Região Sudeste, em Bauru, em julho de 2013.