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As 10 maiores besteiras que já falei como empreendedor

  • Blog
  • 19 de Outubro de 2014
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*Texto publicado originalmente pela Exame.com. Confira neste link.

Eu abri o meu primeiro negócio em 1999, um pouco antes da bolha. Em menos de um ano, fizemos uma saída parcial e nos juntamos a um grupo maior que ia fazer um IPO na Nasdaq. Aos 24 anos, achei que tinha visto a luz. Entretanto, a bolha estourou, o IPO nunca saiu e nestes quinze anos que se passaram, criamos cinco empresas. Essa trajetória foi marcada por muito mais erros do que acertos, o que gerou um grande catálogo de besteiras que faziam todo o sentido no momento. Listo aqui algumas delas:

1. “O burn rate não é o importante”: considerar que o valuation é múltiplo de faturamento ou de número de usuários e que o IPO, o investimento ou a saída estão logo ali são sinais de que a vaca vai para o brejo. A dúvida é só com que velocidade. É importante acompanhar de perto a quantidade de dinheiro que você queima mensalmente para saber quantos meses de vida você tem antes de buscar uma nova rodada de financiamento, e essa rodada vai levar seis meses. Você tem que saber o momento certo de usar a “opção nuclear” e aterrissar o negócio.

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2. “Tudo se resolverá quando o faturamento chegar a X, esses custos são indispensáveis para a operação”: se tem uma lei que rege uma startup é que ela deve ser enxuta. É preciso ter o mínimo de custo, principalmente no primeiro ano de atividade. Quase todos os custos são “cortáveis” e devem ser aparados o tempo todo. Não existe maior enganador que a vítima do autoengano, o fundador que quer manter a moral do time não encarando a realidade dos fatos leva todo mundo para o precipício.

3. “Esse negócio está quase fechado e vai resolver todos os problemas. Não podemos mexer em nada agora”: os negócios só fecham quando a caneta bate no papel. O ciclo de sobrevivência de uma startup não pode depender de um “home run” comercial. Isso é tratar um problema crônico (sua empresa é deficitária) como um problema agudo.

4. “Ele é muito inteligente e é meu amigo, vai ser um ótimo sócio”: é quase impossível empreender sozinho. Quando você começa, o mais comum é empreender com quem você já conhece e é amigo, mas quem você conhece provavelmente é muito parecido com você. A escolha do sócio é bastante importante e não passa por questões pessoais ou emocionais. Normalmente, a cabeça de sua empresa deve ter um hacker, um vendedor e um designer de produto. Busque o equilíbrio, a heterogeneidade de perfis e o alinhamento de interesses.

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5. “Não se preocupe em complicar o contrato social. Qualquer problema, depois a gente discute e resolve”: sociedade é como um casamento, você nunca acha que vai dar errado quando está casando. Mas diferenças entre sócios existem e é preciso, assim como em um relacionamento, acertar as regras antes de entrar no jogo. A regra áurea é nunca entre em um negócio que não tenha cláusula de saída e, no caso de uma startup, uma cláusula de resolução de conflitos, como “buy or sell”, por exemplo. 

6. “Precisamos de uma sede que inspire confiança nos clientes”: como já citei anteriormente, a primeira regra de uma startup é ser enxuta. Nenhuma empresa precisa ser um prédio grande e imponente, é necessário apenas ser eficiente. A mesma coisa vale para a contratação de funcionários. Esse foi um dos aprendizados da primeira bolha: uma sede gigante, uma saída de meia página na imprensa ou ter um monte de funcionários só é bom para o ego. Você tem mesmo que validar seu modelo de negócios, qualquer coisa que não seja nesta direção é vaidade.

7. “Não podemos perder essa pessoa, ela é indispensável e a empresa vai acabar”: parece meio desumano, mas todas as pessoas são substituíveis. O que é preciso é montar uma estrutura de sócios que mantenha sua eficiência e forme pessoas aos poucos, para facilitar essas substituições que são necessárias mais vezes do que você pode imaginar. Ironicamente, quando você discute este tema abertamente e tem planos de contingência, preemptivamente você está impedindo o nascimento de “prima donas” e as pessoas tendem a funcionar melhor.

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8. “O produto ainda não está pronto, só podemos ir para o mercado quando ele estiver completo”: aqui entra o conceito de Mínimo Produto Viável (MVP) ou Produto Mínimo “Lançável” (shippable, em inglês), a versão mais simples de um produto que pode ir para o mercado e sua empresa começar a aprender com ela. O produto só emerge após um processo contínuo de validações de hipóteses e aprovações do usuário, e o quanto antes você colocar o seu produto em contato com ele, mais chance você tem de chegar ao sucesso antes do seu dinheiro acabar.

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9. “Ele é muito inteligente, vai ser um ótimo funcionário”: no livro “Outliers”, Malcolm Gladwell criou a regra das 10.000 horas. O maior sinal de sucesso é a capacidade de trabalhar de forma engajada, com muita energia, durante muito tempo. O lugar de gênios excêntricos é na academia, em uma startup você precisa de gente com quem você possa contar e que, como disse Rudyard Kipling “fill the unforgiving minute with 60 seconds worth of distance run”.

10. “Nós todos temos que ganhar a mesma coisa, para que haja colaboração”: a melhor maneira de gerar colaboração é deixar que indivíduos busquem o que é melhor para eles individualmente e, de forma livre, trocar competências que não têm com os outros. Os incentivos devem ser simples, claros e alinhados com a cadeia de sócios e outros stakeholders para que o sistema se otimize. Qualquer coisa diferente disso é brincar de fazenda de formiga com um sistema dinâmico e complexo que é sua empresa. Ou seja, vai matar a meritocracia e com certeza vai dar errado.