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Como ganhar dinheiro empreendendo em tecnologia em um ambiente de recessão

  • Blog
  • 22 de Março de 2015
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Esse texto foi publicado originalmente na Exame.com. Confira aqui.

Se analisarmos historicamente o ecossistema brasileiro de empreendedorismo em tecnologia podemos concluir que passamos por dois grandes ciclos de startups e capital de risco. O primeiro aconteceu em 1999/2000 e foi um efeito colateral da primeira bolha de internet, enquanto o segundo está mais relacionado aos efeitos do afrouxamento monetário americano e do “super ciclo” de commodities chinês, com seu pico entre 2011 e 2013.

Estes dois ciclos deixaram legados importantes, como o deal da Globo.com e Itália Telecom e do Buscapé no primeiro e o tripé de empresas que movem caixas, como a Dafiti; empresas que movem bits, como o Hotel Urbano; e empresas genuinamente de produtos, como a Movile.

Essas são as notícias boas. A notícia ruim é que agora o Brasil se tornou novamente pouco atrativo para investimentos externos e estamos de volta a um ambiente de não só pouco crescimento mas de recessão, com inflação alta (estagflação) e com a classe de ativo de investimento de Venture Capital em tecnologia concorrendo com uma renda fixa de quase 12% ao ano.

Antes que você pare de ler esse artigo para tomar um pouco de ar e depois atualizar o seu currículo, aqui vai a verdade nua e crua: esse cenário é o normal. Os espasmos de crescimento brasileiro normalmente são “vôos de galinha”, mas isso não impediu gente realmente boa de criar empresas como a Ambev, o BTG Pactual e grandes empresas de tecnologia, como a TOTVS.

Juntando as peças: além de muito neurônio e capacidade de execução, o que esse pessoal teve foi uma leitura pragmática de qual era o cenário em que estavam inseridos e como hackear o sistema, ou seja, entender a diferença entre a “realidade percebida” e a realidade, ganhando dinheiro independente da quantidade de “nãos” da burocracia, do custo Brasil, do baixo crescimento ou de qualquer outra muleta emocional.

Não existe um receituário para empreender em tecnologia com sucesso (afinal, se tivesse todo mundo usava e zerava o retorno potencial), mas talvez um processo (ou um framework, talvez seja uma palavra mais adequada) ajude a navegar esses próximos dois anos e criar empresas perenes de êxito.

  1. Hackeie o sistema. No livro “Zero to One”, Peter Thiel diz que você não deve procurar disrupção porque isso significa atacar mercados preexistentes com inovação operacional. Esqueça isso. No nosso caso, existe ineficiência por todo lado. Neste capitalismo de laços, negócios se fundamentam com barreiras competitivas regulatórias e políticas, o que faz empresas muito ineficientes ganharem dinheiro. Se você “hackear” o sistema não só estará se apropriando do retorno existente nessas empresas como também da matéria escura que é perdida na ineficiência interna delas.
  1. Pense grande mas execute pequeno e trabalhe iterativamente. Frases como “Sonhe grande” e “não faça incrementalmente” é um jogo de quem está otimizando alocação de capital em empresas maduras. Seu caso é como criar alguma coisa com muito pouco recurso, simplesmente porque não existe capital. Ou seja, você tem que criar negócios muito enxutos, trabalhar iterativamente e rápido e buscar “breakeven” logo. Postergar crescimento buscando monetização rápida é um sinal que você entendeu o tipo de ambiente em que você está.
  1. Tecnologia é um negócio de gente. Na nossa terra falta desenvolvedor e sobra custo Brasil, aprenda a conviver rapidamente com esse fato. Só comece alguma coisa quando conseguir um time de sócios complementares e um plano de sobrevivência de pelo menos um ano. Sócios que já tenham “visto a morte de perto”, ou seja, quebrado (ou quase), são especialmente valiosos.
  1. Mova bits, não mova caixas. Você precisa aceitar o fato de que o custo Brasil ataca melhor o que ele entende. Modelos de negócio que sejam puramente digitais têm muito mais chance de sobreviver e muito provavelmente são menos intensivos em capital.
  1. Não importe o modelo norte-americano sem adapta-lo. Não vai adiantar transportar o modelo de startups e financiamento dos EUA e implantá-la no Brasil. Nossas estruturas, nossos impedimentos e nosso ambiente são outros, e o modelo de lá não vai funcionar aqui sem “tropicalização”. É preciso encarar o problema de frente, entender o ecossistema em que você está inserido e trabalhar em cima disso.

No final a mensagem é positiva: dá para ganhar dinheiro em tecnologia ou em qualquer outro setor no Brasil em qualquer cenário, mas como disse Tom Jobim “o Brasil não é para principiantes”. A primeira coisa que você tem que resolver é sua capacidade de autoengano.

Todo sucesso repentino tem dez anos de trabalho duro escondidos. Esse negócio é de longo prazo, principalmente no Brasil. Vale mencionar que você tem que fazer uma avaliação madura da sua situação de vida, se você pode entrar nesse túnel. Se você pode sobreviver caso a luz no final dele seja na verdade um trem no sentido contrário, bater a poeira, levantar a cabeça e começar tudo de novo.