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Nós (não) queremos os seus dados

  • Blog
  • 28 de Junho de 2015
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No final do mês passado e início deste mês aconteceram dois dos principais eventos anuais do mundo da tecnologia: o Google I/O e o WWDC, da Apple. Em ambos os eventos, as empresas se esforçam para mostrar para o mundo e para os desenvolvedores as suas últimas novidades e lançamentos, e esse ano não foi diferente. Se você quiser saber mais sobre o que rolou no Google I/O pode ver este post do Rafael Toledo ou este do Rafael Auday, que falou sobre o evento aqui no Brasil. Também falei um pouco sobre as novidades do Google Now neste post. Agora se você quiser saber o que rolou no WWDC, fiz um resumão neste post.

Hoje vou abordar um tema que permeeou (ou ficou excluído) o discurso das duas gigantes: seus dados!!! Enquanto o Google anunciou com maestria as novas possibilidades de minerar e aprender com os seus dados, a Apple apresentou diversas novas tecnologias e avanços na Siri como sua assistente pessoal, mas enfatizou repetidamente que o controle dos seus dados quem tem é você.

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​Okay, vamos olhar cada caso separadamente e tentar entender o que está acontecendo aqui. A Google é uma empresa que tem grande parte do seu faturamento baseado em anúncios, e isso significa que ela permite que parceiros consigam anunciar de forma relevante para os usuários, baseados em seus hábitos de uso na internet. O modelo de anúncio permeia quase todos os produtos da Google, seja a busca, o Waze, o Gmail ou o Youtube, e é assim que a empresa consegue se sustentar. O mesmo vale para o Twitter e para o Facebook, apesar de que esses dois se baseiam em dados mais relacionados ao seu grafo pessoal para obter esse tipo de segmentação.

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A Apple, por outro lado, é uma empresa cujo faturamento depende muito da venda de hardware e da margem em cima deles. A empresa posiciona seus produtos como de maior qualidade e, em muitos casos, como artigos de luxo (Apple Watch, por exemplo) e isso faz com que tenha valores propositalmente acima do mercado. Seu foco é oferecer a melhor experiência para o usuário e estimular aqueles que ainda não possuam um produto a fazer a compra, enquanto os usuários que já possuem comprem mais ou o mais novo após o lançamento.

Esses são posicionamentos extremamente diferentes, e que em 2015 passam a não ser mais conflitantes. No seu evento, a Google falou das maravilhas que ela pode fazer ao indexar as suas fotos e aprender com elas, ou como ela consegue te ajudar a chegar mais cedo nos lugares sabendo por onde você anda. Ou seja, ela fundamentalmente depende dos seus dados. Na verdade, do máximo de dados possível de pessoas ao redor do mundo.

Por outro lado, a Apple anunciou diversos avanços nos seus mecanismos de busca e inteligência (artificial, apesar de nunca usarem a palavra “artificial” em seu discurso). Agora, é possível buscar as fotos do seu melhor amigo tiradas em Utah no ano passado usando linguagem natural, falada ou escrita, para fazer a busca. A Siri também passa a ler os seus e-mails e criar eventos automaticamente no calendário quando você recebe sugestão de hora e lugar, indexa telefones nos rodapés dos e-mails para tentar adivinhar quem está te ligando quando o número não foi adicionado à sua lista de contatos, etc. Durante todo o discurso, eles enfatizavam em alto e bom som que “eles não precisam e nem se importam com os seus dados”.

Formas fundamentalmente diferentes de abordar um problema

Enquanto a Google fica melhor quando consegue convergir todas as suas informações (e as dos outros) em um grande minerador de dados em algum lugar na nuvem, a Apple se posiciona como uma empresa que usa os seus dados apenas localmente e no seu dispositivo, para facilitar para você quando necessário, e você sempre tem a opção de “revogar” o acesso aos seus dados se você quiser.

Talvez a questão mais fundamental seja descobrirmos se (e o quanto) os usuários se importam em ter os seus dados compartilhados com outras empresas ao preço de uma experiência melhor. A Apple está apostando que os usuários se incomodam e quer cada vez mais se distanciar da imagem de George Orwell em 1984. A Google, por sua vez, não menciona para os seus usuários em nenhum momento que o seu modelo de negócio ainda é fundamentalmente baseado em venda de anúncios. Os acontecimentos de 11 de setembro de 2001 mostraram o quanto as pessoas são capazes de abrir mão da sua privacidade quando confrontadas com um cenário de insegurança e quando podem obter algum beneficio disso.

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Formas fundamentalmente iguais de abordar um problema

No entanto, nem tudo são diferenças entre a Apple e o Google. Por exemplo, ambas entendem que existe uma grande parte da experiência do usuário à qual elas não possuem acesso direto: a camada de aplicativos. Quem melhor do que o app da Kayak para lhe dizer os melhores preços de viagem? E quem melhor do que o Airbnb para sugerir os melhores lugares para estadia nas suas férias do mês que vem? No entanto, grande parte dessas informações ficam “fechadas” para acesso apenas nas duas empresas, e dessa forma a Apple não consegue dar a melhor experiência possível para um usuário procurando destinos e locais para as suas próximas férias e a Google não consegue indexar todas as ofertas disponíveis de moradia dentro do aplicativo.

Para endereçar esse problema, ambas as empresas anunciaram APIs que permitem a interação entre os aplicativos e os seus mecanismos de inteligência (artificial). Por meio dessas APIs, o desenvolvedor pode oferecer algumas informações relevantes para que o processo de “assistência ao usuário” seja melhor.

Além disso, a Apple e o Google são detentoras das lojas de aplicativos nas duas principais plataformas móveis, e agora ambas estão competindo também no mercado de analytics da jornada do usuário: desde a visita de uma página de um aplicativo na loja até à desinstalação e medição de hábitos de uso e engajamento. A Apple anunciou o App Analytics dá um visão completa e bem madura sobre o ciclo de vida dos seus usuários com o seu app, e a Google está em uma posição vantajosa ao conseguir integrar a visão do Google Play ao seu outro produto muito bem estabelecido, o Google Analytics, que também dá uma visão completa da jornada do usuário.

O que acha? Qual das duas estratégias faz mais sentido e qual será a vitoriosa? Deixe sua opinião abaixo e até a próxima!