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The chinese are coming

  • Blog
  • 6 de Julho de 2015
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A chegada da Xiaomi e o que isso significa para o mercado mobile brasileiro

A semana passada provavelmente será bem lembrada, pelo menos para os brasileiros. No último dia 30 de junho a Xiaomi fez o seu lançamento oficial no Brasil, conforme já havia sido dito aqui no Blog no nosso post sobre tendências para o mundo mobile em 2015. Mais do que apenas um lançamento de um aparelho, a Xiaomi também estava estreando em mercados fora do contexto asiático, então vocês podem imaginar o quanto isso significa internamente e externamente para a empresa.

O vídeo do keynote de lançamento pode ser visto na íntegra aqui, e esse link do TechTudo tem uma análise minuciosa sobre o que foi anunciado. Também vale dar uma olhada na matéria do The Wall Street Journal sobre o evento. Mas não é exatamente essa análise que quero fazer nesse post. Vamos começar falando sobre preço, que é o diferencial da estratégia da empresa.

Preço é tudo (?)

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Os próximos milhões de usuários vão tomar as suas decisões de compra de smartphones baseado primeiro em preço e depois em funcionalidades.

O Brasil atualmente possui uma base que está entre 80 e 100 milhões de smartphones (e crescendo). É seguro dizer que a Apple se posiciona no mercado como um aparelho diferenciado, que já conta com um altíssimo fator de fidelidade dos seus clientes, mesmo que com 10 a 20% do mercado brasileiro. Logo ao lado nós temos os aparelhos Android high-end, variando entre marcas como LG, Samsung e Motorola. Nessa faixa, mesmo com valores relativamente altos (ou comparáveis ao preço de iPhones) existe uma disputa acirrada entre os modelos – desde o Moto X até Samsung S6.

Neste contexto, existe uma fatia dos usuários que vai se ver pressionada a entrar no mercado de smartphones, pois quando for efetuar a troca do seu próximo aparelho só vai encontrar smartphones à venda em qualquer loja. Descontando qualquer subsídio que operadoras podem oferecer, o primeiro fator decisivo para a compra vai ser preço, e é nessa zona que os novos aparelhos da Nokia rodando Windows Phone estão posicionados. O segundo fator decisivo para a compra serão as funcionalidades do dispositivo, algumas na camada de hardware, como: “A câmera é boa? O celular é rápido? Consigo usar dois chips?” e outras na camada de software: “Tem Whatsapp, Instagram ou Facebook na lojinha de aplicativos?”.

É exatamente aí que a Xiaomi está se posicionando com o RedMi 2. O aparelho vai ser vendido por R$ 499,00 à vista, o que é um preço razoável para um smartphone de entrada, mas a grande jogada vem na segunda parte do processo de decisão de compra: a Xiaomi se posiciona como uma empresa que fornece soluções de qualidade para todos. Isso quer dizer que o usuário não perde qualidade conforme o preço vai baixando. A empresa está se posicionando com um aparelho “que cabe no bolso” (literalmente e figurativamente) e que tem qualidade, o que tem um apelo enorme em mercados emergentes como o Brasil.

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O RedMi 2 é o começo, mas eles estão mirando no topo.

image04A estratégia, inicialmente, é criar uma base de usuário brasileiros com os aparelhos de entrada e depois ir acrescentando novos produtos e versões superiores de smartphones para essa base.

E os negócios vão bem para a Xiaomi, segundo anúncio no Twitter da empresa.

E os negócios vão bem para a Xiaomi, segundo anúncio no Twitter da empresa.

Além do preço, foco na experiência do usuário e design

Apesar dos comentários, críticas e da abordagem da Xiaomi no passado em relação à Apple e suas soluções de design, além do preço que “cabe no bolso” temos o fator qualidade na experiência, desde dispositivos bem acabados e feitos com materiais de qualidade (apesar do preço) até técnicas não ortodoxas de devoluções e conserto de aparelhos quebrados na cidade de São Paulo. Essa talvez seja a principal arma da Xiaomi contra os seus competidores.

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Outro ponto no qual a experiência é decisiva é a MIUI, que consolida soluções úteis ao usuário como, por exemplo, a forma como ícones de apps são organizados na home do celular ou são excluídos. Não está claro ainda como isso tudo se encaixa na visão de design do Google, especificamente o Material Design, e como isso pode impactar na navegabilidade de usuários de Android entre diversos aparelhos que rodam o mesmo sistema operacional.

Criar um ecossistema. Esse é o modelo de negócio

Congruente com a estratégia da Xiaomi, o smartphone é o primeiro passo para a experiência Mi, mas a empresa fez questão de apresentar também outros gadgets que ela produz, como o Mi Bank, um carregador portátil, a Mi Band, uma pulseira inteligente para monitorar a sua atividade física e ainda a lâmpada de LED que facilita a leitura noturna.

O que isso quer dizer? Significa que a Xiaomi tem capacidade de execução para competir no mercado de hardwares conectados, que cada vez mais se distancia da definição exclusiva de smartphones e se expande para outras áreas (relógios, fones, televisores, equipamentos de som, wrist bands, carros, casas e escritórios inteligentes). Esse é um posicionamento muito similar a outros players, como a Apple: Beats by Dr. Dre, Apple Watches, iPhone, iPod, Macbooks, Apple TV, etc.

Um dos exemplos mostrados no evento foi um usuário desbloqueiando o seu RedMi 2 ao pegá-lo com uma mão cujo pulso está usando a Mi Band do dono. Isso mostra a direção que a empresa está seguindo, similar ao que faz a Apple: uma vez dentro da experiência Mi você vai querer ficar cada vez mais integrado, usando outros tipos de hardware e software que garantam uma boa experiência. Criar uma base de usuários sustentável para garantir esse ecossistema deve ser a prioridade número 1 da Xiaomi no Brasil.

Finalmente uma cara para mobile no Brasil

Da esquerda para a direita: Leo Marroig e Hugo Barra, da Xiaomi, e Rafael Steinhauser, da Qualcomm.

Da esquerda para a direita: Leo Marroig e Hugo Barra, da Xiaomi, e Rafael Steinhauser, da Qualcomm.

Talvez um dos aspectos mais importantes do evento do dia 30 de junho seja o fato de brasileiros pensando mobile para brasileiros e o impacto que isso terá na qualidade das experiências que serão produzidas para o nosso mercado. Hugo Barra, além de ser ex-VP do Google Android, é brasileiro, e nós já falamos aqui no Blog sobre como as especificidades culturais dos próximos mercados irão moldar os hábitos de uso dos smartphones e da internet nos próximos anos. Quem poderia imaginar que emoji seria algo tão expressivo e lucrativo como se tornou na China e Japão? Ou que pessoas comprariam e venderiam ovelhas no Kuwait pelo Instagram? Ou que repressões governamentais estimulariam o uso de apps de mesh network nos protestos de Hong Kong?

É bem provável que a próxima grande sensação da internet venha de outros lugares que não o Vale do Silício, justamente pelos contextos culturais que estão influenciando o universo online nos próximos anos. É ai que entra o Hugo Barra. Não especificamente ele, mas o que ele representa para o mercado que a Xiaomi está adentrando. Entender os contextos culturais, como funciona o “jeitinho brasileiro” e outras nuances pode ser difícil para uma empresa estrangeira. Entender a percepção de valor associada a produtos asiáticos (especialmente chineses) no mercado brasileiro e conseguir transformar essa imagem, capturando oportunidades que sejam locais e brasileiras, pode ser um diferencial competitivo que poucas marcas terão no Brasil, ainda mais quando você consegue colocar um rosto brasileiro associado à marca.

Dúvidas ou algum comentário adicional sobre a vinda da Xiaomi? Deixe sua contribuição abaixo. Até a próxima!