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O Google está ofuscando a linha entre web e apps

  • Blog
  • 14 de Julho de 2015
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Na edição deste ano do Google I/O, a empresa anunciou diversos avanços interessantes. A jóia da coroa parece ser cada vez mais o Android, que atingiu marcas excepcionais de uso nos últimos anos.

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Mapa de dispositivos Android ao redor do mundo, categorizados por high-end, mid-end e low-end.

Dentre as funcionalidades anunciadas para o Android M estão o Chrome Custom Tabs e as melhorias na forma como o sistema operacional suporta deeplinks e compartilha o status entre as aplicações e a web. Assunto muito técnico, mas que na verdade esconde uma ambição maior do Google.

Primeiro, o que são as Custom Tabs do Chrome?

Segundo o próprio site de desenvolvedores do Chrome:

“App developers face a choice when a user taps a URL to either launch a browser, or build their own in-app browser using WebViews.

Both options present challenges — launching the browser is a heavy context switch that isn’t customizable, while WebWiews don’t share state with the browser and add maintenance overhead.

Chrome custom tabs give apps more control over their web experience, and make transitions between native and web content more seamless without having to resort to a WebView.”

Ou seja, o objetivo técnico das customs tabs é permitir que você compartilhe estado entre a sua aplicação e a navegação web, além de atacar o problema de mudança de contexto quando você tem que abrir um link web a partir de um aplicativo.

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Aplicativo do Pinterest rodando no Android M.

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Página web do próprio Pinterest, aberta a partir do clique em um link http dentro do app.

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Transição entre o app e a web

De uma maneira geral, mudanças muito bruscas de contexto na experiência do usuário são prejudiciais, ainda mais quando ele perde o contexto de navegação. Por exemplo, ao entrar na web ele não compartilha o status de usuário logado que existia no app.

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Modelo atual para resolver a ambiguidade quando dois apps Android podem abrir potencialmente o mesmo conteúdo. Isso quebra o fluxo contínuo da experiência do usuário.

É aí que o Custom Tabs do Chrome entra. Ele permite que os desenvolvedores de aplicativos customizem a aparência de uma aba do Chrome para ficar mais parecida com o design e guia visual do aplicativo, além do conteúdo web ser carregado assincronamente, em background, para que o conteúdo esteja disponível para o usuário de forma mais rápida.

Okay, tudo muito bonito. Mas o que isso quer dizer do ponto de vista estratégico?

Se você analisar a fonte de receita do Google vai ver (conforme já foi dito aqui) que a empresa vive da venda de anúncios online, e a grande maioria desses anúncios são exibidos por meio da sua Rede de Display, de links patrocinados em suas páginas de resultados de buscas ou nas visualizações de e-mails no Gmail.

O problema é que o próprio Android, em muitos casos, é conflitante com o modelo de negócio do Google. Ao migrar o paradigma de páginas web para um paradigma de aplicativos, o Google lentamente vê a sua dinâmica de exibição e de engajamento em anúncios mudar. Se o grosso do conteúdo na internet passar a ser produzido e consumido dentro de aplicativos, o Google vai cada vez mais ver as suas oportunidades de obter e minerar dados esvanecer, diminuindo consequentemente a capacidade de mostrar anúncios contextualizados e relevantes tanto para os usuários quanto para os anunciantes.

Pense, por exemplo, na quantidade de informação que está dentro do Whatsapp e que o Google não possui acesso. Você pode perguntar em um grupo de amigos no Whatsapp sobre indicações de um bom bar para ver o jogo de domingo e o Google simplesmente não tem como saber dessa interação. Você descobre um artista interessante dentro do app do Spotify e esse conteúdo potencialmente pode nunca ser assimilado pelo Google.

A forma que o Google está encontrando para se manter à frente nessa tendência é ofuscar a linha entre o que é um app e o que é web. De uma forma ou de outra, o Google está bem posicionado em duas camadas estratégicas do mundo mobile: o sistema operacional e o navegador web. Mas esses dois mundos conversavam muito pouco entre si, e é neste ponto que o Google está trabalhando.

Se o Google conseguir fazer com que o usuário não saiba a diferença entre o que é app e o que é web, ele ganha mais território no seu posicionamento. Assim como o Material Design cria um guideline de experiência de usuário que funciona tanto para o mundo web quanto para o mundo app, as Customs Tabs agora permitem que conteúdo web seja carregado devidamente usando o Chrome – e respeitando a experiência fluida do usuário. Ou seja, nada de webviews atochadas dentro do app. Além disso, deeplinks e schemes permitem que a transição entre os dois mundos seja contínua e o app indexing estimula que os desenvolvedores permitam que o conteúdo dentro dos aplicativos também sejam indexados. Tudo isso se encaixa em uma estratégia clara de garantir posicionamento no mundo mobile.

Se você analisar as iniciativas de anúncios mobile que o Google possui hoje poderíamos listar: os anúncios na app do Youtube antes de ver um vídeo; os anúncios de estabelecimentos que são listados no Waze (comprado pelo Google); e as impressões de anúncios ligados ao AdMob (também comprado pelo Google). Repare que nada disso impede ou atrasa as iniciativas de anúncios web-mobile que o Adwords já permite hoje. Para quase todas essas ações existe um concorrente bem posicionado no mundo mobile: o Facebook está ameaçando a hegemonia do Youtube em consumo de vídeos e 87% dos MAUs (Monthly Active Users) do Facebook acessam esses vídeos a partir de dispositivos mobile.

What’s really going on here?

O Google está se posicionando para a próxima geração de anúncios, que serão predominantemente online e mobile, e está se infiltrando no máximo de pontos de contato possível com o usuário (seja no sistema operacional, no aplicativo, na web ou no conteúdo). Entretanto, como qualquer empresa com uma grande quantidade de dinheiro e pessoas brilhantes em seu staff, ela está trabalhando incessantemente para dois objetivos supostamente conflitantes: manter o seu monopólio em anúncios online e diversificar suas iniciativas para diminuir seu risco.

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