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Facebook e os próximos 10 anos do mundo digital

  • Blog
  • 19 de Abril de 2016
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Na semana passada aconteceu em São Francisco o evento anual do Facebook para desenvolvedores e parceiros. Esse tipo de evento sempre vem acompanhado de muitas novidades, mas o que tornou essa edição especial foi a natureza das mudanças que o Facebook está planejando.

A primeira coisa importante é refletirmos sobre a missão do Facebook:

“Give everyone the power to share anything with anyone”.

Ou seja:

“Dar a todos o poder de compartilhar qualquer coisa com qualquer pessoa”.

Essa é uma frase bem complexa, que tem um monte de implicações.

Atualmente o Facebook possui 1,6 bilhão de usuários, dos quais 1 bilhão acessam os seus diversos produtos e serviços diariamente.

Existem atualmente mais pessoas conectadas ao Facebook do que cristãos no mundo. Do total de 3,2 bilhões de pessoas usando a internet ao final de 2015, metade delas estão no Facebook. Isso significa que um terço do mundo conectado à internet visita (de alguma forma ou de outra) o Facebook todos os dias. Com um valor de mercado de US$ 325 bilhões, o Facebook está começando a sua jornada em direção a um novo tipo de Facebook.

Conforme já falamos nos nossos posts de tendências, o Facebook vai cada vez menos ser lembrado pelo site azul em que você dava like na coisas e se conectava aos seus amigos para algo muito mais sofisticado no sentido de como compartilhamos coisas no mundo real e virtual.

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Podemos agrupar as várias novidades anunciadas no evento em algumas iniciativas, e todas elas convergem na missão da empresa para os próximos anos. Um dos planos é conectar os outros 4,1 bilhões de pessoas que ainda não têm acesso à internet utilizando diversos meios. Por exemplo, usando canhões de laser acoplados a aviões ultraleves que sobrevoam regiões com pouca ou nenhuma infraestrutura para levar o sinal de um lado para o outro ou, melhor ainda, reinventando e disponibilizando para a comunidade as camadas de software e hardware que são necessárias para se executar uma empresa de telecom.

Em cima disso existe muita aposta em novas formas de interação com os seus produtos como, por exemplo, os bots dentro de aplicativos de mensagem (nós também falamos disso no nosso post de tendência), que são potencializados por uma sempre crescente capacidade de inteligência artificial e machine learning, necessárias para prover a experiência correta para esse tipo de produto. Além disso, os próximos anos também serão impulsionados por soluções de realidade aumentada ou virtual, como o Oculus Rift ou o Samsung Gear, assim como vídeos que proporcionam experiências mais imersivas, como vídeos 360º. De diversas maneiras, esse foi um evento à parte.

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Facebook F8 – Abril/2016

Subindo a pilha e descendo a pilha…

Em tecnologia e produtos digitais, é muito comum usarmos a analogia de uma “pilha”, na qual diversos serviços e produtos são construídos um em cima de outro em camadas, para avaliarmos os posicionamentos estratégicos de algumas empresas. Nesse último F8, o Facebook se posicionou de forma muito abrangente em diversos pontos do ecossistema do mundo digital.

Por exemplo, o objetivo do Facebook é cada vez trazer mais usuários para dentro dos seus serviços e produtos, até que ele eventualmente consiga permitir a todos no mundo a habilidade de compartilhar algo. No entanto, no meio desse objetivo ambicioso do Facebook existe um problema grave de infraestrutura para garantir essa conectividade. Quando pensamos em acesso à internet, é muito comum quebrarmos a análise em três componentes:

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Estudo da Internet.org que, por sinal, é impulsionada pelo Facebook 😉

O primeiro componente é conectividade, quem está ou não conectado à internet. O segundo é disponibilidade, a quantidade de pessoas que são cobertas por antenas ou outros serviços capazes de prover conectividade. E o terceiro é relacionado à capacidade dessas pessoas de arcar com os custos de se conectar.

O Facebook está se propondo a usar seu próprio dinheiro para ajudar essas pessoas a se conectar à internet e, de preferência, torná-las também usuários de seus serviços e produtos. Para colocar em uma analogia sucinta, é como se a Apple decidisse que para conseguir vender mais dos seus aparelhos high-end e que custam caro, lançasse uma campanha global para aumentar o salário médio das pessoas que ainda não têm seus dispositivos, podendo, assim, transformá-las em clientes Apple. Ou seja, arrojado…

No entanto, não é a primeira vez que visionários mostram manifestações desse tipo, e quando o impacto na sociedade é atingido, na maioria dos casos, os resultados são enormes para a humanidade. Um exemplo foi levar eletricidade para todas as pessoas ou cobrir de estradas, rodovias e ferrovias os diversos cantos do mundo, ou ainda permitir que seja possível viajar para qualquer lugar do mundo em menos de um dia.

Ok, essa foi a camada mais baixa da pilha na qual o Facebook se posicionou no F8. Os principais players que são ameaçados nesse sentido são as Telecom’s em geral, que vão ver cada vez mais o custo de seus planos de conexão à internet diminuídos ou, no melhor dos casos, subsidiados pelo Facebook. A boa notícia é que provavelmente o Facebook está disposto a arcar com parte dos custos de infraestrutura, mas com certeza esse mercado vai ser sacudido. Lembrando que a Google também tem uma estratégia de MVNO (Mobile Virtual Network Operator, ou operadoras móveis com rede virtual) e balões transmissores de internet para se posicionar nesse ponto. Alcance, nesse caso, é crucial para ambas.

A camada de hardware

Outra parte muito importante abordada no evento está relacionada a alguns novos produtos que o Facebook está lançando no mercado. O muito antecipado Oculus Rift é um passo em direção ao que o Facebook imagina que será a forma de compartilhar experiências daqui a alguns anos. Realidade virtual é um fato, e eu digo isso porque eu experimentei. Abaixo tem uma foto minha muito constrangedora tentando fazer uma cesta de três pontos em um jogo no Oculus Rift. A experiência ainda não é perfeita, obviamente, mas o Facebook tem o dinheiro para chegar lá.

Esse sou eu, tentando fazer uma cesta de três pontos em um jogo no Oculus Rift.

Esse sou eu, tentando fazer uma cesta de três pontos em um jogo no Oculus Rift.

As aplicações reais desse tipo de tecnologia são óbvias, desde jogos extremamente imersivos e sociais, nos quais você e seus amigos podem jogar uma partida de basquete virtualmente, cada um em suas próprias casas, até uma reunião “presencial” entre sua equipe em uma sala virtual para discutir os últimos andamentos do projeto ou uma viagem até o pico da Cordilheira dos Andes, acompanhando uma expedição.

O ponto é que esse tipo de experiência (extremamente rica, extremamente imersiva e extremamente virtual) nos faz repensar diversos aspectos do que são as interações sociais que temos hoje e como elas podem melhorar nos próximos anos. E é aqui que isso tudo é importante para o Facebook. A missão da empresa é permitir que pessoas compartilhem coisas, momentos, sentimentos, experiências, informações, reações, memórias e qualquer coisa que elas queiram.

Facebook F8 - Abril/2016

Facebook F8 – Abril/2016

Ser dono desse espaço nos próximos anos significa começar a pavimentar o caminho para as tão antecipadas (e comumente frustradas) interações em uma realidade virtual ou aumentada. Nesse sentido, podemos considerar a compra da Oculus Rift como muito similar à compra do Whatsapp. Em situações nas quais o Facebook não é capaz de competir ele usa o seu capital para comprar a competição e garantir o seu lugar na próxima onda de interação social que estiver por vir.

Outra parte pertinente da camada de hardware está relacionada a vídeos. Em primeiro lugar, por que vídeos? Existe uma briga acontecendo neste mundo. Vídeos são os conteúdos mais consumidos no mundo digital, principalmente em mobile. O Youtube tem visto crescimentos agressivos em visualizações de vídeos nos últimos anos, e a maioria delas impulsionadas por smartphones.

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O Facebook vem seguindo a mesma tendência e em muitos casos consegue ter mais visualizações do que o próprio YouTube. Como ambas as empresas têm modelos de negócios muitos similares, ou seja, venda de anúncios que performam bem justamente porque elas possuem muita informação sobre os seus usuários, é natural assumir que esse é um terreno muito importante para se ter um bom posicionamento. Anúncios em vídeos possuem um engajamento maior, mas para os próximos anos a experiência de assistir um vídeo irá mudar.

Assim como anunciado pelo Google no ano passado, o Facebook também está entrando nesse novo mundo de vídeos 360º, capazes de permitir uma experiência infinitamente mais imersiva e que, por consequência, é o que as pessoas vão querer compartilhar em um futuro próximo. Liberando os esquemas e diagramas para construir uma câmera 360º em um modelo open source, a empresa está indicando que pretende continuar avançando na sua visão de vídeos como uma das principais interações sociais no mundo digital e, portanto, garantindo o seu lugar nesse terreno também.

É engraçado pensar as implicações disso no contexto de pré e pós-produção de filmes, assim como na forma como iremos consumir esse tipo de vídeos. Apesar de ser anunciado que as mesmas ferramentas de pós-produção ainda se aplicarão a esse tipo de problema, toda a estrutura de storytelling e montagem de cena e outras coisas que permaneciam intactas até alguns anos atrás na indústria de cinema provavelmente vão mudar, e rápido. Empresas que produzem software para pós-produção desse tipo de conteúdo também irão mudar, e televisões provavelmente também serão afetadas por esse tipo de tendência.

Nessa camada os principais players que ficam desafiados são: Google e seu Magic Leap com o Youtube, Microsoft e seu Hololenz e o XBox.

A camada que não foi mencionada, propositalmente

Muitas vezes, é importante percebermos aquilo que está ausente no discurso, talvez até mais do que o que está, em alguns casos. Durante algum tempo houve rumores sobre o smartphone do próprio Facebook, que depois foi relativamente sintetizado em sua home screen para alguns aparelhos Android. Apesar de tudo o que foi anunciado no evento, não houve nenhuma menção sobre algum movimento nesse território. E a razão é muito clara: o Facebook e os seus produtos são parte ativa da grande maioria de pessoas que possuem um computador (seja ele Apple, Samsung, Dell, etc) ou um smartphone (seja ele da Apple, Samsung, Xiaomi, LG, etc).

Na verdade, com a quantidade certa de isenção de tráfego para produtos do Facebook, é bem provável que algumas pessoas confundam a internet com o que acontece dentro do Facebook, do Whatsapp e do Messenger. Nesse sentido, é quase como se o Facebook não precisasse mais se posicionar nesse segmento para se garantir no mercado, ele pode viver em cima dos smartphones e computadores do mundo, assim como em cima dos sistema operacionais mobile (iOS e Android), ou em cima dos principais browsers (Chrome, Firefox, Safari, etc).

No entanto, existe um problema relativamente grave nessa estratégia. Por não ser dono da camada de sistema operacional, o Facebook depende das lojas de aplicativos e dos navegadores para conseguir ter acesso aos bilhões de pessoas na internet. E isso precisa ser endereçado.

Bundling e os novos jardins murados

Um dos principais anúncios do F8 este ano foi a abertura de API’s do Facebook Messenger, que permitem que negócios e desenvolvedores interajam com os 900 milhões de usuários ativos que o Facebook possui nessa plataforma. A ideia não é nova, e existem diversos aplicativos de mensagem que já provêem esse tipo de solução, como o Slack, o Telegram, o LINE e vários outros, mas pouquíssimos possuem a escala que o Facebook tem.
image02A dinâmica funciona mais ou menos assim: você entra no Messenger e procura por um serviço que permita que você chame um táxi. Ao buscar pela palavra “táxi”, diversos “bots” (apelidos carinhosos para robôs que vão interagir com você em linguagem natural – leia-se, linguagem de humano – como se fosse uma conversa natural) de táxis aparecerão, você escolherá um e então poderá ter uma conversa fluida com um robô, na qual você pedirá um táxi, dirá a sua localização (ou melhor, compartilhará a sua localização), e o seu táxi será chamado.

Existem algumas premissas importantes que precisamos discutir aqui. Em primeiro lugar, é indiscutível que aplicativos de mensagem são hoje a principal forma de interação que as pessoas têm em seus smartphones. Provavelmente a primeira coisa que você faz quando acorda é olhar o seu celular e procurar por mensagens no Whatsapp ou Messenger, antes mesmo de sair da cama, e muito, mas muito antes de fazer sequer uma ligação no estilo convencional, ou seja, usando a sua operadora =)

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Em segundo lugar, existe um movimento de bundling para dentro dessas plataformas. Diversos serviços são fornecidos dentro do LINE, por exemplo, desde pedir um táxi até ouvir música, ver vídeos, fazer pagamentos e jogos. O próprio Facebook já vinha experimentando uma loja de apps para o Messenger dentro do próprio Messenger e tirando, assim, parte do poder que a Apple e o Google possuem por serem gatekeepers das apps stores dos dois principais sistemas operacionais mobile. O Facebook também já possui a assistente M, que participa de algumas conversas dentro do Messenger e permite um relacionamento direto, via interface conversacional, com um humano de forma a atender alguns pedidos e necessidades, como comprar uma roupa nova, ver o saldo do seu banco e outras atividades que necessitariam de um aplicativo específico para isso.

Esse movimento tenta fazer uma ruptura no modelo atual de aplicativos que temos hoje e na forma como interagimos com eles.  Em vez de baixarmos um app, acionamos um bot dentro do Messenger e fazemos por ali, conversando, o que em outros tempos precisaria de um aplicativo instalado em seu celular para completar a tarefa.

Em terceiro lugar, é muito importante não perdermos de vista a natureza do dinheiro que o Facebook faz. Ele vende anúncios online usando dados dos seus usuários para permitir anúncios mais segmentados e, por consequência, mais efetivos. O faturamento do Facebook obtido a partir de anúncios mobile (na sua grande maioria para incentivar a instalação de aplicativos para usuários) é enorme e hoje em dia já compõe mais do que 70% do faturamento total da empresa. A disruptura no modelo de receita do Facebook para alguma dinâmica de bots terá que ser complementada com uma estrutura que permita o mesmo tipo de receitas a partir dos bots. E isso é um ponto importantíssimo da estratégia do Facebook que foi sutilmente falada, mas que ainda não está clara para todos.

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O quarto ponto pertinente é o tipo de interação que é possível com esse tipo de tecnologia. Junto com as API’s do Messenger, o Facebook também liberou uma “plataforma” para processamento de linguagem natural e inteligência artificial (nesse caso, especificamente, machine learning), na qual ele facilita a resolução de problemas complexos de processamento de linguagem natural. No entanto, ainda assim o nível de interação na interface com o usuário que vai ser necessária para esse tipo de produto ainda está muito limitada a alguns templates fornecidos pelo Facebook, e é natural esperar que a barra para esse tipo de interação no mobile hoje em dia esteja bem alta. É importante acompanharmos como isso vai se desenrolar nos próximos meses ou anos.

Em quinto lugar está a adoção dos usuários: vai ser interessante ver a receptividade para esse tipo de interação. O primeiro desafio é a quebra do hábito de recorrer às app stores para baixar um app para executar uma ação. Isso é facilitado pelos stickers, com os quais você tira foto para descobrir um bot; pelo mundo real; ou talvez esse problema não exista mais, dado a quantidade de aplicativos que os usuários de smartphone baixam com o passar do tempo. O segundo desafio está relacionado à qualidade da experiência: será que a experiência conversacional (digitada ou falada) é pertinente para todos os casos de uso? O terceiro ponto tem a ver com a abertura e receptividade da comunidade de desenvolvedores para permitir que esse tipo de solução evolua.

O que me leva ao último ponto: o ecossistema de desenvolvedores. Atualmente a plataforma vai ser alimentada por diversos bots que são feitos a partir da pressão vinda de dois lados (usuários e negócio), mas que é implementada pelos desenvolvedores. O mercado já viu US$ 40 bilhões pagos para desenvolvedores (apesar de ainda existir muita discussão em relação à capilaridade desse dinheiro para os desenvolvedores menos amparados), qual seria o incentivo para migrar para a plataforma do Facebook? O efeito em rede de adoção desse tipo de interação vai depender da adoção e proximidade dos desenvolvedores com o ecossistema Facebook. A Apple e o Google fazem isso muito bem e, apesar de o Facebook já ter tido seus problemas com a comunidade em torno de suas API’s, a necessidade agora pede por uma relação muito mais amistosa e próxima para que o ecossistema de bots emerja.

Nessa camada existem vários competidores, desde diversos produtos da Apple, como a App Store, o iMessage, o Apple Music e a Siri; até o Google com o Now e o Google Play e a Microsoft com a sua nova suíte de ferramentas para desenvolvimento de Bots; bem como a Amazon e as suas iniciativas com a Alexa e os diversos aplicativos de mensagem que ainda competem entre si em lugares nos quais o mercado ainda não se estabilizou.

Por fim, vale a pena dizer que precisamos continuar a observar como os próximos passos serão dados, pois muita coisa ainda vai acontecer.

 

Ficou alguma dúvida ou tem alguma sugestão? Aproveite o campo abaixo! Até a próxima.