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Como foi a Conferência Internacional Design Principles & Practices

  • Blog
  • 20 de Junho de 2016
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A Conferência Internacional Design Principles & Practices foi criada em 2007 e proporciona um espaço de discussão sobre o significado e o propósito do design nos âmbitos profissional e acadêmico. Se baseia em quatro principais características a partir das quais compromete-se a reunir uma ampla gama de disciplinas e perspectivas nas áreas correlatas ao design: internacionalismo, interdisciplinaridade, inclusão e interação.

O formato dessa conferência geralmente segue a seguinte configuração: durante a manhã são realizadas Plenárias nas quais renomados Designers e Arquitetos são convidados a apresentar seus projetos, e em seguida são realizadas mesas redondas temáticas divididas em diferentes salas. Após o almoço, iniciam-se as sessões paralelas, nas quais são apresentados os artigos aceitos, também divididos por temáticas.

Na edição de 2016, a conferência aconteceu na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) e o tema foi: “O Design Transformando a Sociedade”. Em três dias de conferência, passaram por lá mais de 200 participantes de 27 países, que puderam assistir à apresentação de designers e arquitetos como Guto Requena, Saulo Barreto, Ana Couto, entre outros.

No primeiro dia de conferência, Guto Requena apresentou alguns de seus projetos que discutem os espaços híbridos entre a arquitetura e as tecnologias de informação e comunicação. Mestre em arquitetura e urbanismo pela FAUUSP, sua pesquisa é focada na cibercultura e no impacto das tecnologias digitais no design e na arquitetura.

Um dos projetos desenvolvidos pelo Estúdio Guto Requena foi a criação de uma instalação interativa no topo do Edifício Martinelli em São Paulo para o “Heineken Up On The Roof”. O Bar temporário faz parte do movimento de Urban Hacking, que pode ser definido como uma resignificação crítica de estruturas urbanas abandonadas ou ruínas industriais, mas também se manifesta como propostas lúdicas e de preservação ambiental.

Intitulada Sensitive Star, a instalação interativa foi desenvolvida para representar a interação da marca com o público. Uma estrutura de metal foi incrementada com sensores, luzes, computadores embarcados e caixas de som. Utilizando os dados dos sensores a estrela reagia à presença das pessoas em seu interior exibindo alterações nos padrões luminosos e nos sons emitidos a partir de mídias gravadas previamente e sons generativos. Os sons gravados buscavam representar a diversidade da cidade de São Paulo: trechos de conversa, anúncios de liquidação, barulho de carros ou ônibus, sinos de igrejas e gritos de feiras de rua.

Vídeo da Heineken Up On The Roof disponível no canal do Estúdio Guto Requena no Youtube

Nas sessões paralelas tive a oportunidade de participar da sala temática sobre design de serviços. Levantei uma discussão sobre a influência das interfaces digitais e das redes sociais no modo como percebemos e nos relacionamos com as pessoas, com as cidades onde vivemos e com as organizações governamentais que regulam o espaço urbano. Apresentei um estudo de caso de dois aplicativos móveis brasileiros que oferecem um meio de comunicação entre a sociedade civil e os governos: o 1746 Rio e o Colab. Enquanto a primeira plataforma é uma central que reúne serviços prestados ao cidadão, a outra oferece um espaço para discussão que permite que as pessoas se reúnam em torno de temas de interesse comuns e se mobilizem. O objetivo do artigo era verificar se as diferenças entre os aplicativos desenvolvidos pela sociedade civil e por uma entidade governamental se apresentam também na interface com o usuário final, o que foi identificado como verdadeiro dentro da amostra analisada (se tiver curiosidade, pode ver  minha apresentação aqui).

Youn Young Choi, da Hongik University na Coreia do Sul, utilizou metodologias do design de serviços para compreender as dificuldades de adaptação de jovens refugiados da Coreia do Norte. A Guerra da Coreia começou em Junho de 1950 e terminou em Julho de 1953, porém os países ainda vivem em estado oficial de guerra, em trégua desde então. Por apresentarem melhor absorção de novas culturas se comparados às pessoas mais velhas, os adolescentes desempenham um papel fundamental em uma futura Coreia Unificada. Além disso, os adolescentes refugiados experienciaram ambas Coreias, tornando-se pontes culturais entre os dois países. Entre as conclusões da pesquisadora, os principais problemas enfrentados pelos jovens refugiados da Coreia do Norte são: o preconceito, a falta da família e a comunicação, especialmente a inibição causada pela diferença entre os sotaques.

Yoojin Kim, também da Hongik University na Coreia do Sul, em sua pesquisa sobre a economia on-demand analisou o aplicativo KakaoTaxi (que é uma versão coreana da 99 Taxi ou do Easy Taxi que utilizamos aqui no Brasil). Uma curiosidade é que, ao contrário do que aconteceu no Brasil, na Coréia do Sul o único aplicativo de Taxi (o KakaoTaxi) só foi criado depois que o Uber entrou no mercado coreano.

A pesquisadora Laura Villamizar Portilla da Universidad Nacional de Colombia realizou um estudo de caso com crianças que possuem algum tipo de deficiência cognitiva. O título de seu trabalho foi “The Construction of Inclusive Play Environments”. Por meio de metodologias do design de serviços ela conseguiu identificar que essas crianças sentem a necessidade de ter mais controle sobre as brincadeiras. A partir deste input ela começou a construir protótipos de brinquedos que ocupam todo o espaço de brincadeiras, criando um ambiente inclusivo para essas crianças e que não limita a possibilidade de interagir com outras que não possuem nenhum tipo de necessidade especial, valorizando a importância do design na inclusão social.

Resumindo, o design aparece em todos os trabalhos como uma ferramenta capaz de buscar dados sobre pessoas reais e sintetizá-los de modo a criar soluções que buscam incluir pessoas em um processo: a inclusão de estrangeiros refugiados à cultura local e a das crianças que apresentam níveis de deficiência cognitiva a um ambiente de brincadeiras que atenda às suas necessidades; a inclusão do mercado sul-coreano à tendência global de economia on-demand e a inclusão dos cidadãos no processo democrático buscando aumentar os canais de comunicação com os governos. Desta forma, o evento transformou a ideia de que a democracia é um processo que ocorre só no momento da votação para uma preocupação cotidiana.

A Gabriele Roza, jornalista da PUC, também escreveu sobre a conferência. Se quiser saber mais, é só clicar aqui.

Já participou do Design Principles & Practices ou outra conferência de design? O que achou? Tem alguma dúvida sobre como participar de uma conferência acadêmica na área? Deixe seu comentário abaixo!

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