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Algumas notas sobre mobile payment e mobile wallets

  • Blog
  • 8 de Setembro de 2016
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Recentemente eu tive a oportunidade de participar da conferência Cards, Payments and Identification 2016 em um painel sobre mobile payment. Junto comigo participaram o CEO da PagPop, Marcio Campos, e o ex-gerente de produtos da Rede, Gustavo Ribeiro. Esse post é um apanhado do que discutimos ali, entre outras tendências do mercado no Brasil e no mundo.

O primeiro ponto importante para definir é o que queremos dizer quando falamos de mobile payment. No contexto deste post, estamos falando sobre efetuar pagamentos usando dispositivos mobile. Isso inclui (mas provavelmente não se restringe a) pagamentos usando apenas o dispositivo para transmitir as informações do pagamento, aplicativos que já tenham o seu cartão cadastrado ou alguma outra camada fornecida pelo sistema operacional.

Um ponto interessante para ressaltar é como mobile payment se diferencia das famosas mobile wallets. Um basicamente pode vir a conter o outro, então historicamente, dentro de uma carteira, eu tenho informações sobre como posso pagar pelas coisas (dinheiro, cartão, cheque, etc.). Por outro lado, na minha carteira eu também guardo diversas outras coisas, como minha carteira de identidade, carteira de motorista, cartão do plano de saúde e eventualmente algum cartão de entrada nos escritórios da Concrete. Eu poderia incluir aí também cupons, informações sobre bilhetes para passagens aéreas e outras coisas. Na prática, um complementa o outro.

Quando começamos a analisar o mundo de mobile payment, temos que primeiro fazer uma distinção bem clara sobre o segmento que estamos falando. Podemos dividir o mundo em dois grandes grupos: os bancarizados, ou seja, aqueles que possuem alguma forma de conta bancária, possivelmente cartão de crédito/débito, e o outro grupo que são os desbancarizados, aqueles que estão fora do sistema bancário.

Os desbancarizados

Segundo pesquisa da Febraban de 2015 sobre tecnologia no setor bancário, atualmente no Brasil nós temos 86,9% da população bancarizada.

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Esse número não leva em conta a movimentação bancária ou saldo em conta, apenas os CPF’s ativos cadastrados na base. Ainda assim, temos aproximadamente 25 milhões de brasileiros desbancarizados, que diariamente efetuam pagamentos, provavelmente com dinheiro físico. Esse fenômeno não é nenhuma novidade e o Brasil na verdade nem é o melhor modelo para ser analisado. Os países na África, por exemplo, são os casos mais impressionantes sobre esse tema. Lá, grande parte da população tribal e rural faz suas transações bancárias por meio da  Zaad, com o celular e usando interfaces bem rústicas para determinar o valor e quem recebe o dinheiro. Em países onde a infraestrutura bancária não é desenvolvida, esse tipo de solução tende a ser bastante popular e introduz um novo broker no meio da transação, a operadora telefônica.

Funciona mais ou menos assim: alguém compra créditos na operadora, que são carregados na sua conta (normalmente pré-paga) daquela operadora. Depois, discando para um número como o abaixo, você determina para quem e quanto vai ser transferido.

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Existem casos nos quais até mesmo os salários das pessoas são pagos dessa forma. Repare que não envolve, na maioria dos casos, um app mobile rodando em um smartphone, mas sim uma interface usando USSD tradicional, que por consequência é universalmente entendida e aceita pela grande maioria dos celulares no mundo. Uma sacada bem inteligente para países que não possuem infraestrutura necessária para um sistema bancário saudável.

Os bancarizados

O outro grupo que precisamos analisar com mais cuidado é formado pelos, obviamente, bancarizados. E talvez esse contexto seja o mais próximo da nossa realidade atualmente, pelo menos para os que lêem o nosso blog. A cadeia de valor para o bancarizado, no contexto do mobile payment, tem que ser analisada de forma bem criteriosa, pois como é por ela que a maior parte do dinheiro trafega, a estrutura hoje em dia é bem especializada e ao mesmo tempo extratificada.

Pense nessa cadeia de valor como uma pilha, na qual o valor normalmente desce e raramente sobe. Podemos começar, por exemplo, com um app como o Uber. Quando você paga uma corrida do Uber você está acessando uma das camadas mais altas dessa pilha, um app de smartphone. O seu cartão de crédito (previamente cadastrado) é utilizado pelo Uber para fazer um pagamento, o Uber cobra um taxa em cima daquela corrida (extraindo valor para si) e paga o motorista. O dinheiro em si está na sua conta em um dos principais bancos do Brasil e é creditado na conta do Uber e do motorista (que também está em um dos principais bancos) e a transação é completada.

Note que o acesso aos hábitos do usuário, rota que foi feita, opção do carro, se dividiu ou não a corrida, se gostou do motorista, qual o tipo do carro do motorista e diversas outras informações valorosas que costumam gerar grandes negócios não desce a pilha. Apenas a informação da transação desce a pilha e chega até o banco, que é onde está o dinheiro.

A pilha de mobile payment no contexto dos bancarizados pode ser dividida nas seguintes camadas: infraestrutura (ex.: telecom’s), hardware (ex.: Samsung Pay/ Apple Pay), OS (ex. Google Wallet / Apple Pay), Apps (ex. Starbucks, Uber, Walmart, Target, 99taxis), Cloud/API (Paypal, Visa Checkout, Mastercard MasterPass, MCX ), e a partir daqui começamos a entrar nos bancos e linhas de crédito até eventualmente chegarmos na conta bancária, na qual efetivamente temos o dinheiro guardado.

Problemas para a adoção de mobile payment

Assim como foi com outras formas de pagamento, precisamos analisar quais são os fatores que hoje estão impedindo que essa nova forma de interagirmos com dinheiro e pagamentos evolua.

Limitado

Na adoção de qualquer tecnologia relacionada com pagamento, o fato de ela estar limitada, ou seja, funcionar apenas em alguns estabelecimentos e/ou condições é um fator limitante para a adoção. Iniciativas para resolver esse problema podem passar por legislação que forcem a adoção ou outros mecanismos.

Falta de um diferencial

O hábito de pagar pelas coisas com dinheiro é milenar e funciona relativamente bem para a grande maioria das pessoas. A proposta do pagamento mobile e/ou variações do tema precisa apresentar um diferencial e uma proposta de valor clara para os usuários, de forma a catalizar essa adoção.

Sistemas fechados

A maioria dos sistemas robustos de mobile wallet e/ou mobile payment costumam ser fechados, ou seja, Apple Pay não fala com Android Pay que não é integrado com algum sistema/serviço/estabelecimento/dispositivo, que não permite muita colaboração com varejistas, instituições financeiras, usuários e desenvolvedores, e que por sua vez contribui para diminuir a velocidade da adoção.

Ou seja, é possível que essas questões comecem a ser atacadas a partir de agora com os players gigantes entrando nessa área, como Samsung e Apple. Entretanto, ainda faltam alguns pontos importantes, principalmente para mercados emergentes, para que possamos adotar nossos smartphones como forma de pagamentos. Em um mercado sensível como o financeiro, cultura é um fator extremamente relevante e que deve pesar para o tempo de adoção.

Ficou alguma dúvida ou tem alguma contribuição? Aproveite os campos abaixo! Até a próxima.