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Como cultivar sua criatividade: o dilema do Product Owner

  • Blog
  • 16 de Outubro de 2016
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Eu sou uma entusiasta. Leio muito e participo de debates sobre gestão de produto, não só porque é o que eu faço profissionalmente mas, antes disso, porque poder criar coisas é muito estimulante para mim. Para criar, você deve encontrar o equilíbrio entre a absorção de informações externas – como as necessidades do seu cliente, tendências de mercado e possibilidades tecnológicas – e a sua visão interna – aquela inspiração que vem de dentro, uma fagulha de criatividade que toma você e faz com que todas as pecinhas do quebra-cabeça se encaixem.

A despeito de existir muita informação sobre como preencher um lean canvas, montar um modelo de negócios, construir um produto mínimo viável, coletar e analisar dados, pivotar e encontrar o nicho certo de mercado, eu sempre fico com a sensação que os manuais de “como fazer…” falham quando o assunto é criatividade em gestão de produtos. Eu entendo perfeitamente que a subjetividade do assunto torna uma abordagem didática e “passo a passo” muito mais difícil. Mas a ideia de que a criatividade se baseia somente em talento é muito estranha para mim, então me coloquei o desafio de tentar explicar como a criatividade pode ser atingida e aperfeiçoada.

Criatividade é a constante exposição do seu eu interior, e isso exige coragem.

Criatividade é a constante exposição do seu eu interior, e isso exige coragem.

Tendo estudado pintura (por 7 anos), teatro (por 10 anos), música (por 6 anos) e outras formas de arte (sou formada em cinema e escrevo ficção e poesia desde que aprendi a escrever), sei em primeira mão que talento ajuda. Eu, por exemplo, tinha talento inato para pintura e desenho, mas comecei cantando como um pato com dor de barriga. Em algum momento, me tornei razoavelmente boa em ambos, e o mesmo vale para as demais formas de arte que pratico. E esta é a palavra-chave: prática.

Talento é algo maravilhoso, e genuinamente belo, mas ele só te leva até certo ponto. No entanto, a suposição mais comum é que criatividade é uma habilidade inata, e não cultivada, quando essa ideia não poderia estar mais longe da verdade. Aquela pequena violinista de 5 anos de idade que soa como a Vanessa Mae? Ela esfola os dedos todos os dias estudando. O pintor que cria imagens transcendentes, fazendo você entender o sublime kantiano? Ele socou, queimou, retalhou e rasgou um número infindável de telas até entender o que trazia sua criatividade à tona, e como traduzir aquelas emoções e sensações em pinceladas.

Sou uma PO e recebo mensagens do além (só que não)

Sou uma PO e recebo mensagens do além (só que não)

A criatividade dá trabalho, gente! É experimentar o tempo todo, e errar muitas vezes. Para cada interpretação brilhante, houve horas e horas de cantoria desafinada. No entanto, estranhamente, quando falamos de ideias brilhantes, esperamos que elas caiam na nossa cabeça, como o cruzamento de uma musa apaixonada e um mestre Pokémon, sussurrando “eu escolho você”.  É como se você tivesse poderes sobrenaturais, e subitamente fosse capaz de incorporar uma entidade que sabe exatamente o que vai dar certo. Na verdade, isso não existe, ainda que, em alguns momentos, uma ideia fantástica possa emergir na sua consciência, dando a sensação de uma epifania.

Esta foi minha primeira experiência com o sublime kantiano. Fiquei parada ali, olhando para a pintura em puro deleite, por horas e horas, enquanto uma profunda conexão com o metafísico sobrecarregava meus sentidos.

Esta foi minha primeira experiência com o sublime kantiano. Fiquei parada ali, olhando para a pintura em puro deleite, por horas e horas, enquanto uma profunda conexão com o metafísico sobrecarregava meus sentidos.

Mas é possível dissecar o que é uma excelente ideia, uma epifania? Durante toda a sua vida, você recebe, armazena e processa informação. Na gestão de produto, focamos muito em como coletar informação e compreendê-la: relatórios analíticos, entrevistas, negociação com stakeholders, mensuração de valor, criação de personas… E tudo isso é extremamente importante, porque criatividade sem absorção é só hubris. Cada artista cria para alguém além de si mesmo, buscando gerar catarse. A arte move, ensina, inspira e traz autocompreensão a seu espectador, e o artista deve ter uma conexão profunda tanto consigo mesmo quanto com seu espectador para alcançar isso. Fazendo um paralelo, o product owner deve ser capaz de profunda empatia com seu usuário e, ao mesmo tempo, criar novos produtos a cada ciclo de forma apaixonada, canalizando esta empatia. É uma trabalheira sem fim e empirismo na veia, muito mais do que um único momento de epifania.

Meu produto é lindo, se você não concorda você é burro.

Meu produto é lindo, se você não concorda você é burro.

Já conversei com product owners com complexo de Pigmalião, que se apaixonaram por uma ideia em especial, e se apegaram a ela, descartando todo feedback que apontasse para a necessidade de pivotar. Isso é análogo a uma bailarina que sente que um determinado movimento é o correto, mas quando ela coloca o pé no chão, se desequilibra e a delicada suspensão da descrença que hipnotiza seus espectadores é quebrada. Ela deve escolher entre ajustar o ângulo de seus membros para pousar com graça ou repetir o movimento e cair.

Inspecionar e adaptar, com o objetivo de aprimorar a experiência do espectador

Inspecionar e adaptar, com o objetivo de aprimorar a experiência do espectador

Como criadores, devemos manter nossa criatividade afiada praticando o exercício da criação o tempo todo. Devemos olhar para o mundo considerando tudo que pode ser, e produzindo novas ideias continuamente, como respiramos. Tudo pode ser melhorado. Cada pequeno hábito, cada pequena necessidade, cada ação que tomamos ou observamos outra pessoa tomar é a fagulha para acender nossa curiosidade dormente e produzir a chama de uma grande ideia.  Tenho a sensação que, neste mundo superinformado, tendemos a repetir o que ouvimos em vez de nos alimentarmos a partir do excesso informacional e transformarmos todos esses dados em criações. Isso deveria ser visto como um exercício diário para product owners, mas em vez disso, fazemos mau uso das informações, confundindo combustível com energia: esperamos que uma pesquisa nos dê uma lista de requisitos, quando deveríamos estar buscando uma lista de necessidades para as quais vamos criar soluções. Quando você coleta a solução em vez de problemas, você abdica do seu papel como criador e se torna um mero burocrata de requisitos, catalogando, enviando e arquivando funcionalidades.

biscoito da sorte

Criar não é nem pura inspiração nem a coleta de solicitações, e sim a arte de andar sobre a linha tênue entre dados e sentimento, aperfeiçoada durante a prática diária. A criação se alimenta da paixão e do fracasso, das unhas roídas e da observação constante, até você encontrar aquele momento em que você acerta na mosca!

… Só para depois começar tudo de novo, como uma nova aventura.

Então, o que você vai criar hoje?

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