Concrete Logo
Hamburger button

O pequeno grande detalhe do evento da Apple

  • Blog
  • 15 de Setembro de 2017
Share

Alguns dias depois do tão esperado evento da Apple, no qual os principais VP’s da empresa apresentaram com maestria diversas novidades e incrementos de produtos, fiquei pensando em um post que não abordasse o evento em si (para isso já existe muita cobertura), mas sobre alguns detalhes sutis da estratégia geral da Apple que foram apresentados de forma implícita.

Em primeiro lugar, a Apple aumentou em praticamente toda a sua linha de produtos apresentada a capacidade da sua GPU, ou seja, a sua unidade de processamento gráfica. Seja em performance, tamanho ou otimizações, tudo foi incrementado para facilitar a integração entre software e hardware.

Apesar de parecer irrelevante de início, ou melhor, apesar de parecer como apenas mais um incremento em hardware que a Apple anuncia ano após ano, é importante salientar duas consequências e aplicações práticas disso no contexto mobile: machine learning e realidade aumentada.

A possibilidade de fazer cálculos otimizados de álgebra linear para machine learning ou de processamento gráfico para realidade aumentada é o diferencial para garantir que a experiência ao usar apps que possuam essas funcionalidades esteja à altura da expectativa que os clientes têm quando falamos em produtos Apple.

A partir daqui vemos três grandes implicações: o primeiro dilema é que nem todos os usuários da Apple estão na última versão de hardware disponível. Quando teremos uma base instalada grande o suficiente para que a adoção dessas tecnologias seja feita em escala massiva nos produtos Apple? A segunda implicação está em estimular o ecossistema de developers em torno da App Store para produzirem aplicativos que consigam gerar valor para o cliente Apple acomodando esses avanços tecnológicos em funcionalidades nos seus produtos. Por fim, como os concorrentes da Apple (seja na camada de sistema operacional – Google/Android ou em hardware – HTC, Samsung, Motorola e outros) vão conseguir reagir a tempo e com a qualidade de experiência esperada.

iPhone 8 e X: o baseline da experiência Apple para 2019

Dá uma olhada na evolução dos smartphones Apple e seus preços após os anúncios desta semana:

  • iPhone X: $999
  • iPhone 8 Plus: $799
  • iPhone 8: $699
  • iPhone 7 Plus: $669
  • iPhone 7: $549
  • iPhone 6s Plus: $549
  • iPhone 6s: $449
  • iPhone SE: $349

Podemos observar que o preço do iPhone 7 Plus está equiparado ao do iPhone 8. Ou seja, quem estiver, dentro do ciclo de substituição de aparelhos Apple, na linha dos modelos pares (iPhone 4 passando para iPhone 6 entre 3 e 4 anos) provavelmente vai continuar pulando a troca de aparelho de números ímpar e indo direto para o iPhone 8 ou X (caso o preço não seja um impeditivo), em algum momento de 2018/2019.

Quem estiver no ciclo de substituição de aparelhos na linha dos modelos ímpares e comprou o seu iPhone 7 em algum ponto entre 2016/2017 provavelmente vai executar o ciclo de substituição no mesmo tempo, 2018/2019. Nesse aspecto, é bem provável que a base instalada ativa do iPhone perto entre 2018 e 2019 será empurrada para iPhone 8 ou X. E por que isso é relevante?

Para ambos os casos, seja machine learning efetivo com as redes neurais rodando nos dispositivos e embarcadas em aplicativos – em vez de sendo processadas na nuvem ou em algum backend – ou uma experiência de realidade aumentada que tenha valor no nível esperado para ser adotado em larga escala pela população, o ecossistema vai precisar de aparelhos que permitam que essa mágica aconteça, e isso depende, além de outros fatores, da qualidade GPU disponível nos aparelhos.

Ecossistema iOS, App stores, developers e usuários

Nos últimos anos tivemos poucos casos de utilização de realidade aumentada (AR) que tenham sido adotados em larga escala. A princípio podemos citar dois: Pokemon Go, que usa AR combinada com geolocalização, e os filtros do Snapchat (realidade aumentada espacial).

Os dois casos já foram replicados em diversos outros produtos, mas os detalhes e o cuidado inicial para garantir que essas duas experiências estivessem no nível de estado da arte para as duas empresas levou alguns anos.

A partir daqui temos duas grandes questões a serem observadas: a primeira é que vamos ter nos próximos anos mais facilidade para encontrar funcionalidades que lancem mão tanto de capacidades de machine learning, como CoreML e Tensorflow, quanto de realidade aumentada, como ARKit e ARCore, em aplicativos não tão extraordinários. A segunda é que de nada importa termos a capacidade tecnológica se os hábitos do usuários e o problema/necessidade que a funcionalidade tenta resolver para o cliente for irrelevante para ele.

Competindo com a verticalização da Apple:

Já comentei outras vezes: a Apple é uma das poucas empresas no mundo atual capaz de provar uma integração entre hardware e software a serviço da experiência do usuário. Por esse motivo, é uma das poucas capaz de oferecer uma experiência verdadeiramente diferenciada e premium (e por isso o seu preço é sempre maior do que o de seus competidores, e o seu mercado e público-alvo são sempre high-end).

De certa forma, essa integração só é possível em uma empresa que tenha verticalizado a sua cadeia de valor ao ponto de conseguir coordenar e focar os esforços na direção de um objetivo comum.

Quando olhamos para os competidores diretos da Apple em hardware temos uma situação um tanto curiosa. Devido à forma como o Google se posicionou no mercado em relação ao Android, Play Services e nuvem, deixando a execução do hardware para um ecossistema de parceiros (exceto nos casos dos poucos aparelhos pilotos e/ou conceitos que a empresa lança), fica praticamente impossível coordenar os esforços na cadeia de valor até que o conjunto do smartphone, sistema operacional e aplicativo seja capaz de oferecer realidade aumentada ou machine learning embarcado no nível de qualidade esperado pelo usuário para permitir a adoção em larga escala.

Os parceiros possuem ciclos de desenvolvimento de produtos, questões macro e micro econômicas distintas e particulares de onde estão inseridos, hábitos e experiências do público-alvo mais diversificados, necessidade de catalisar a adoção por parte dos desenvolvedores do ecossistema das novas tecnologias, atualização da versão do sistema operacional da base instalada para a versão mais corrente, capacidades específicas de hardware (por exemplo, GPU, tamanho e qualidade da tela e display), etc. Tudo isso deixa a coordenação para um movimento na direção em que a Apple está implicitamente mirando um tanto mais difícil.

Concluindo e corroborando o que falamos até aqui, o movimento mais natural para a Google seria comprar algum fabricante de smartphones e tentar garantir essa verticalização dentro de casa. Foram exatamente rumores dessa ordem que surgiram na semana passada e nessa, nos quais a Google estaria em conversas já avançadas para comprar a HTC. Caso isso venha a ser verdade, o M&A seja completado e a integração entre as empresas aconteça de forma a gerar valor em vez de destruir, a Google também estaria apta em alguns anos para competir com a Apple neste sentido.

Nos resta pegar nossa pipoca e acompanhar até onde a briga vai chegar. Tem alguma dúvida ou observação sobre o assunto? Aproveite os campos abaixo. Até a próxima!

Precisa de ajuda para sua estratégia e quer saber mais sobre nossos times e produtos? Entre em contato.