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Um guia básico para você conversar sobre as últimas semanas do Facebook

  • Blog
  • 19 de Abril de 2018
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Recentemente, você deve ter visto algumas vezes na TV e na internet em geral fotos e vídeos do CEO do Facebook, Mark Zuckerberg, diante do Senado dos EUA respondendo a diversas perguntas dos representantes do povo sobre alguns aspectos do papel na sociedade, a forma de atuação e o futuro da empresa que ele fundou.

Fizemos aqui um compilado sobre os principais temas que giram em torno dessa discussão para ajudar a você formar a sua opinião sobre o que está acontecendo. Vamos lá?

Seus dados, o Facebook e Cambridge Analytica

Nós já falamos da Cambridge Analytica em alguns posts aqui no blog, inclusive mencionamos a empresa neste texto com as tendências de 2018 (ponto para nós ;)). Ou seja, ela não era uma completa desconhecida no mercado. No entanto, apareceu com uma dimensão bastante explosiva mais recentemente, quando um dos cientistas de dados da empresa foi a público revelando o vazamento de 20 milhões… Não, 50 milhões. Na verdade não, dados de 80 milhões de usuários com contas no Facebook.

Antes de tudo, é muito importante se atentar para o fato de que: não houve falha de segurança que foi explorada por hackers e isso permitiu que esses dados caíssem nas mãos da Cambridge Analytica. O Facebook estava funcionando perfeitamente como concebido por sua equipe, mas a conivência dos usuários junto à atuação de empresas que se conectam às API’s do Facebook culminou na exposição dos dados.

Em outras palavras: quando um desenvolvedor faz um aplicativo que se conecta às API’s do Facebook, para usá-lo o usuário deve autorizar o acesso a algumas de suas informações. Anote isso, pois o usuário dá essa permissão explicitamente (dá uma olhada no print acima). Com isso, o Facebook permitia que os apps não só tivessem acesso aos dados do usuário, como também a alguns dados que haviam sido compartilhados com esse usuário por seus amigos. Ou seja, depois de pedir e conseguir acesso a algumas informações, o aplicativo consegue acessar também informações de pessoas – amigos – que não deram essa permissão explicitamente.

E foi assim que a Cambridge Analytica conseguiu acesso a dados de mais de 80 milhões de usuários do Facebook sem que, necessariamente, todos eles tivessem dado permissão formal à empresa ou a qualquer outro app “de fachada” para que acessassem os seus dados.

O ponto central dessa discussão não é que a Cambridge Analytica tenha forçado um pouco a barra em relação às regras e políticas de uso das API’s do Facebook, embora, de fato, ela o tenha, mas o fato de que o Facebook permitia acesso a esse “segundo nível” da rede de contatos do usuário depois que ele deu permissão para um app acessar os seus dados.

O que foi e o que será feito depois da descoberta? O Facebook alterou a API, restringiu o acesso, que antes era dado de forma menos restritiva, a quem usa a sua API após a permissão de um usuário, e vai se tornar mais explícito e lúdico ao explicar os termos de uso da plataforma para ambos os lados – usuários e third parties.

No entanto, muito provavelmente nada disso terá um impacto fundamental no comportamento das pessoas usuárias do Facebook. Tão logo esse tema saia um pouco de prioridade nos meios de comunicação a preocupação em relação ao fato deve diminuir, até porque a maioria das pessoas habitualmente valorizam menos a sua privacidade a favor do acesso a um produto/plataforma que gere valor para elas.

Anúncios, fakenews e o impacto na sociedade em geral

O modelo de negócios do Facebook, assim como a parte majoritária do modelo de negócios do Google, é bastante simples: o usuário tem acesso a um produto de graça e de alta qualidade que atende os seus desejos e necessidades, e em troca o Facebook se alavanca em cima dos dados coletados desse usuário para permitir que anunciantes cheguem até eles com anúncios mais segmentados, baseados nesses mesmos dados.

Uma distinção importante: o Facebook não vende diretamente os seus dados para um anunciante ou empresa, ele apenas permite que qualquer um que queira fazer um anúncio o faça considerando aproximadamente 90 pontos de dados para conseguir segmentar para quem as suas peças publicitárias serão apresentadas.

Outra parte importante do modelo de negócios do Facebook é o custo marginal para vender um anúncio. A natureza da plataforma depende de um modelo “self service” para conseguir dar escala e reduzir consideravelmente esse custo. Com isso, os próprios anunciantes utilizam uma interface para segmentar, pagar e acompanhar o retorno sobre o investimento relacionado àquele anúncio.

Curadoria, interação ou intervenção humana para avaliar o aspecto ético dos anúncios que são criados e postados na plataforma são aspectos praticamente impossíveis de se criar. Até a intervenção de robôs tem implicações bastante complexas para além dos casos mais básicos e óbvios de detecção de abusos na plataforma.

As chamadas “fakenews”, especificamente no Facebook, em sua maioria são compartilhadas por pessoas que não souberam “identificar” de forma clara se a fonte de uma notícia é verdadeira ou não antes de compartilhar, o que gera um efeito exponencial, ou seja, essa notícia compartilhada muitas vezes assume um caráter mais íntegro e gera uma profecia autorrealizada: gera mais engajamento pelo mesmo motivo que a trouxe até ali. É muito importante lembrar que existe uma linha extremamente tênue entre desencorajar que uma notícia falsa seja compartilhada e censurar a liberdade de expressão de indivíduos.

O grande ponto da discussão aqui é a ação de empresas com algum capital financeiro que usam a dinâmica de anúncios do Facebook para “gamificar” o sistema: impulsionam seus posts patrocinados, geram mais visualizações (usando a segmentação correta com a mensagem correta, o que gera mais engajamento) e depois geram mais compartilhamentos, mais seguidores e mais alcance para outras notícias, e assim por diante. Além disso, o algoritmo de newsfeed reforça “bolhas de filtro”, nas quais temas mais compatíveis com o gosto do usuário emergem mais e temas mais distanciados do gosto do usuário submergem dentro da plataforma, aproximando os que pensam parecido e separando os que pensam diferente.

A próxima discussão sobre o tema deve levar em consideração se o Facebook deveria tomar para si a responsabilidade de determinar se uma notícia é fake ou não (e como ele faria isso?), se ele deveria restringir o alcance de notícias vindas de empresas que não façam parte de uma rede “pré-classificada como confiável” de agências de notícias (e como lidaria com questões de censura?) e se deveria dar mais transparência em relação a como são usados os anúncios dos seus clientes (ou seus anunciantes). O que nós, enquanto sociedade global, queremos?

Regulamentação ou Monopólio

No final, existem hoje duas grandes e distintas correntes sobre o que o Facebook precisa fazer para “zerar a sua conta” com a sociedade: a primeira corrente argumenta que o Facebook é uma plataforma muito grande e muito penetrada na sociedade global e que, por conta disso, ela precisa ser regulamentada de alguma forma. A segunda diz que o Facebook cresceu demais e está impedindo a livre competição, com a capacidade de influenciar fortemente o mercado com seu peso. Então, neste segundo contexto, o Facebook precisaria se dividir em empresas menores e ser impedido de fazer alguns M&A daqui pra frente e de oferecer mais serviços agregados em mercados nos quais ele já é dominante. (Lembrem-se da briga da Microsoft sobre o Internet Explorer).

A primeira linha de pensamento, à qual Mark Zuckerberg se mostrou mais favorável, implica em aplicarmos por meio de algum organismo certos mecanismos de controle, responsabilidade, deveres e transparência para gerar melhores formas de comportamento da empresa dentro do espaço em que ela atua. Por exemplo: qual o nível de responsabilidade que uma rede social possui sobre os dados dos seus usuários? Ela poderia permitir que terceiros ganhem vantagem em cima da forma como a plataforma permite que os dados sejam usados? Existe uma necessidade do Facebook de ser mais transparente em relação aos anúncios que são veiculados em sua plataforma e a saúde deles? Existem regras de privacidade que precisam ser aplicadas dentro dos anunciantes? E, pior, em um cenário no qual diversas startups aparecem e desaparecem diariamente, quais são as implicações de tornar necessário que essas empresas tenham que suportar desde o início um fardo burocrático de uma regulamentação que é mais facilmente absorvida por uma empresa do porte do Facebook? O quanto isso sedimenta a posição do incumbente em relação ao mercado de redes sociais?

A segunda linha, à qual Mark Zuckerberg se mostrou totalmente oposto e desfavorável, implica em dividir o Facebook em diversas pequenas empresas, como Instagram, Whatsapp, Oculus e etc. Todas elas seriam empresas realmente independentes entre si, permitindo que a livre competição do mercado as regule naturalmente. Outro posicionamento sobre esse tema seria impedir que o Facebook pudesse comprar novas empresas no mesmo segmento em que atua, ou que pelo menos esses movimentos viessem a ter um escrutínio maior por parte dos órgãos reguladores que avaliasse o impacto na competição. Neste caso, talvez a compra do Whatsapp e do TBH não tivessem sido aprovadas.

É claro que todos os temas citados aqui ainda estão em discussão, e provavelmente vão continuar sendo discutidos esse e nos próximos anos, e devemos ver muitas coisas acontecendo sobre esse assunto. Por enquanto, como mostram os gráficos, o Facebook parece ter sobrevivido à última semana.

E você, o que acha disso tudo? Passou a tomar mais cuidado com as permissões que você dá aos apps no Facebook? Conte pra gente nos comentários! Esperamos que o texto tenha te ajudado a formar a sua própria opinião na briga. Até a próxima!

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